
Em setembro, a ONU lançou em Nova York o Diálogo Global sobre Governança de IA, durante a Semana de Alto Nível da 80ª Assembleia Geral. Ouvir António Guterres defender que a questão não é mais “se” a IA transformará o mundo, mas “como” vamos governá-la, ajuda você e eu a dimensionar o momento. A agenda se ancora em três pilares — política, ciência e capacidade — e busca interoperabilidade entre regimes, segurança e inovação aberta. Também foi anunciado um Painel Científico Internacional Independente e diretrizes para financiamento de capacidades, para que países menos preparados não fiquem para trás.
Trago esse tema à nossa coluna porque governança não é um assunto distante das decisões do seu dia a dia. Quando Annalena Baerbock, presidente da 80ª sessão da Assembleia Geral, alertou que o mercado de IA já vale trilhões, mas concentra benefícios, ela está falando do risco de aprofundarmos assimetrias que você vê na sua cadeia de valor, nos seus fornecedores e até nos dados que alimentam seus modelos. Inclusão não é slogan; é requisito para evitar vieses, litígios e perda de legitimidade.
Minha análise parte de uma pergunta prática: o que muda agora para quem lidera organizações? Primeiro, padrões. O esforço da ONU tende a irradiar princípios que você precisará traduzir em políticas internas de desenvolvimento e uso responsável de IA: propósito claro, avaliação de impacto, segurança por design, privacidade e governança de dados, explicabilidade, gestão de vieses e mecanismos de contestação.
Segundo, prestação de contas. Se todos os países devem ter voz, todas as empresas precisam ter dono para cada risco. Isso significa mapear processos que usam IA, definir papéis, registrar decisões automatizadas e criar trilhas de auditoria. Transparência deixa de ser diferencial e vira condição para operar em múltiplas jurisdições.
Terceiro, capacidade. O relatório citado por Guterres sobre financiamento de capacidades é um chamado para você investir em formação, diversidade de equipes e parcerias com universidades e órgãos independentes. Sem gente preparada, controles viram papel. Capacidade inclui também comitês que unem tecnologia, jurídico, riscos, ética e negócios, com autoridade para pausar projetos.
Quarto, clima e energia. A lembrança de que a IA consome muita energia e pode agravar a crise climática exige metas objetivas: inventário de emissões dos seus workloads, metas de eficiência, contratação de energia renovável, horários de processamento otimizados e escolhas arquiteturais que reduzam custo ambiental sem comprometer segurança.
Quinto, interoperabilidade. O diálogo pretende alinhar princípios com iniciativas da OCDE, do G7 e de blocos regionais. Você ganha em previsibilidade se adotar frameworks que conversem entre si e usar cláusulas contratuais que exijam dos parceiros os mesmos padrões de dados, segurança e direitos dos titulares.
Os fatos também oferecem um antídoto para dois extremos perigosos: a paralisia por medo e a adoção apressada. Nem proibição generalizada, nem “move fast and break things”. O caminho é ritmo responsável: pilotos controlados, métricas de risco, testes de robustez e planos de contingência, especialmente em usos que impactam crédito, saúde, emprego e infraestrutura.
Se a ONU oferece uma mesa com assento para todos, você pode replicar essa lógica dentro da empresa: dar voz a quem é afetado. Conselhos consultivos com sociedade civil, canais para que o usuário conteste decisões automatizadas e compromissos públicos verificáveis ajudam a transformar intenção em confiança.
No fim, governança de IA é um pacto que começa agora, antes da regulação bater à porta. Quando você escolhe transparência, capacidade e inclusão, não está apenas evitando problemas; está criando valor sustentável. E, convenhamos, é melhor escolher como ser governado do que descobrir depois que a tecnologia escolheu por você.
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Denise Debiasi é CEO da Bi2 Partners, reconhecida pela expertise e reputação de seus profissionais nas áreas de compliance e inteligência investigativa, finanças corporativas, consultoria regulatória (AML, BSA e LGPD), contabilidade forense, Due Diligence (financeiro, reputacional, investigativo e operacional), investigações corporativas, antilavagem de dinheiro, FCPA e anticorrupção, entre outros serviços de primeira importância em mercados emergentes.




