Ética, integridade e propósito de negócio

Há uma grande movimentação acontecendo por parte das empresas a fim de contribuir para uma realidade mais sustentável, através de inovações tecnológicas e revisão de processos produtivos, mas sobretudo acerca do propósito do negócio em existir.

Em consequência disso, uma visão holística para gestão de negócios vem se propagando, com base em algumas mudanças de paradigma, sendo duas delas bastante relacionadas à governança das empresas, traduzida por seus códigos de ética, integridade e conformidade diante dos constantes avanços regulatórios. Isso tudo a fim de reduzir danos ao meio ambiente, emissões de gases que causam o efeito estufa e aceleram as mudanças climáticas, além de oferecer uma contribuição positiva para o desenvolvimento econômico e social nas comunidades e áreas de atuação.

Antigamente, de acordo com muitos estudiosos da economia, o principal objetivo para uma empresa existir era o lucro para seus sócios ou acionistas. Dessa forma, os benefícios obtidos pelo negócio, inclusive o lucro, ficavam concentrados apenas nas mãos dos donos, sendo que os prejuízos expressos em externalidades negativas, como poluição, degradação de cenários turísticos que garantiam a sobrevivência de moradores e geração de renda em menor escala, por exemplo, eram repartidos com a sociedade. Atividades individuais ligadas a recursos naturais que iam sendo impactados negativamente pelos negócios, também iam provocando perda de renda para a região como um todo, sem fazer parte do custo da empresa. Com a mudança de paradigma que está ocorrendo, isso tende a mudar.

Nesse contexto, considero chave dois conceitos a serem incorporados à gestão de negócios para a conformidade:

O primeiro é o de externalidade; que significa todo e qualquer impacto gerado pelas atividades das empresas em sua comunidade. Elas nada mais são do que os efeitos não intencionais, sejam eles ambientais, sociais ou econômicos, gerados pelo empreendimento. Podem ser positivas (geração de renda, empregos, conveniência dos produtos e serviços prestados) ou negativas (poluição, lixo, resíduos, degradação ambiental, contaminações, uso excessivo de água ou energia…). Ambas impactam a qualidade de vida da população, incluindo saúde e capacidade de geração de renda. Por isso, o balanço entre essas externalidades precisa ser positivo, para ser benéfico a todos os envolvidos, sendo que os gestores públicos locais, com base na opinião da população, é que consentem as atividades do negócio no local.

O segundo conceito, muito em consonância com o primeiro, é o da “licença social” para operar. A empresa precisa de fato gerar externalidades positivas para a população do entorno, defendendo sua inserção contínua no local, demonstrando iniciativa para promover projetos de proteção ou recuperação ambientais e participando mais ativamente de causas sociais que contribuam para o desenvolvimento humano, como o apoio a campanhas educacionais, de saúde, oficinas de capacitação profissional, parcerias com associações civis e escolas, etc. Por isso, a nova visão de negócios inclui um olhar mais sistêmico para todos os impactos do negócio, a fim de garantir conformidade regulatória e endosso da comunidade para sua continuidade, perpetuando a tal licença para operar localmente, reforçando a reputação e integridade do negócio junto aos governos e comunidades.

Recentemente, a pandemia, a crise econômica, o desmatamento, as queimadas, a crise hídrica e diversos outros problemas têm colaborado para aumentar a conscientização do quanto é essencial que ocorra uma mudança urgente nas práticas empresariais. Por isso, funcionários e clientes são ativos importantes para o negócio e podem oferecer novas ideias sobre tornar a empresa mais confiável e sustentável, portanto, manter ativo o processo de escuta interna e externa à empresa pode ser essencial para a reputação e permanência do negócio na comunidade. Essa escuta pode ser dar através de pesquisas, sondagem telefônica, mas preferencialmente, através de canais estruturados como o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor), linha direta com o ombudsman, canais de ética para esclarecimentos e apuração de denúncias e reclamações.

Com os conceitos de gestão das externalidades do negócio e de sua licença social para operar, as empresas estarão agindo de forma proativa na mitigação de riscos relacionadas às demandas da comunidade em seu entorno, e se protegendo contra penalidades regulatórias, tornando-se portanto, mais sustentáveis e longevas.

Denise Debiasi é Senior Managing Director da Bi2 Partners, associada exclusiva no Brasil do Berkeley Research Group (BRG) e J. S. Held, consultorias globais especializadas em programas de compliance e investigações globais. Denise é especialista em governança e finanças corporativas, gestão de riscos de fraudes e contabilidade forense. Professora da FIA (Fundação Instituto de Administração) e Conselheira do IBEF / MG (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças) – Cátedra Diversidade e Inclusão. Conheça mais sobre a autora: https://www.bi2partners.com.br/lideranca/

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