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Quando o medo vira diretor executivo

em A Outra Sala
terça-feira, 16 de junho de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

Uma reflexão sobre autoria, proteção e as decisões que moldam a nossa trajetória.


Existe uma reunião acontecendo dentro de você.

Talvez neste exato momento.

Ela não aparece na agenda. Não gera ata. Não termina com café e foto para o LinkedIn.

Mas influencia boa parte das suas decisões.

Nessa reunião, o medo costuma ter mais poder do que imaginamos.

Ele opina sobre aquela vaga para a qual você não se candidatou. Sobre o projeto que nunca apresentou. Sobre a conversa que adiou. Sobre o limite que não colocou. Sobre a ideia que continua guardada numa pasta chamada “quando eu estiver pronto”.

O curioso é que o medo raramente se apresenta como medo.

Se fosse tão óbvio, talvez fosse mais fácil identificá-lo.

Ele aparece disfarçado.

Às vezes veste a roupa da prudência. Outras vezes da perfeição. Em alguns casos se apresenta como responsabilidade, planejamento ou senso crítico.

“Vamos esperar mais um pouco.”

“Talvez ainda não seja a hora.”

“Preciso me preparar melhor.”

“Não tenho todas as informações.”

“Vou pensar mais um pouco.”

São frases aparentemente sensatas.

E muitas vezes são mesmo.

O problema começa quando elas deixam de ser estratégias temporárias e se tornam estilo de vida.

Quando o “mais um pouco” vira anos.

Quando a preparação substitui a experiência.

Quando o planejamento ocupa o espaço da ação.

Quando a vida inteira acontece no ensaio.

Na psicologia, aprendemos que boa parte dos nossos mecanismos de proteção surgiu por uma razão legítima. Eles tentam nos preservar da dor, da rejeição, da vergonha, da perda e da exposição.

O problema é que sistemas criados para garantir sobrevivência nem sempre sabem promover crescimento.

Sobreviver e viver são atividades diferentes.

Talvez uma das armadilhas mais sofisticadas da vida adulta seja justamente essa: confundir proteção com direção.

Porque o medo é excelente para identificar riscos.

Ele aponta buracos na estrada.

Percebe ameaças.

Acende alertas importantes.

Mas quando assume o cargo de diretor executivo, algo se perde.

A organização continua funcionando.

As reuniões acontecem.

Os relatórios são produzidos.

Os controles aumentam.

Mas a inovação desaparece.

A coragem desaparece.

O movimento desaparece.

A vida entra em modo de manutenção.

Talvez por isso encontremos tantas pessoas competentes vivendo aquém do próprio potencial.

Não por falta de talento.

Não por falta de capacidade.

Mas porque entregaram ao medo uma função para a qual ele nunca foi contratado: decidir os rumos da própria existência.

Talvez maturidade não seja eliminar os medos.

Nem vencer definitivamente as inseguranças.

Talvez maturidade seja aprender a ouvir o medo sem entregar a ele a cadeira principal da reunião.

Porque existe uma diferença importante entre consultar o medo e permitir que ele assine o planejamento estratégico da sua vida.

O oposto da coragem não é o medo.

É a terceirização da autoria.

E talvez crescer seja justamente isso: reassumir a presidência da própria história sem demitir o departamento de riscos.

“Existe uma diferença importante entre consultar o medo e permitir que ele assine o planejamento estratégico da sua vida.”

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.

E se o céu não for um lugar… e o inferno também não? – Jornal Empresas & Negócios