Ana Luisa Winckler (*)
Carta de abertura à leitora/leitor da Outra Sala
Você já se perguntou se a sua carreira foi uma escolha?
Ou se apenas seguiu a trilha mais batida, a mais segura, a mais premiada socialmente?
Será que você construiu sua trajetória — ou só aprendeu a performar o script de alguém que um dia te disse que sucesso era subir?
Porque talvez seja hora de rasgar os manuais e fazer perguntas que importam. Não sobre onde você quer chegar. Mas sobre quem você quer ser — e que mundo quer deixar.
O dilema da personalização no mundo das planilhas
Estamos em 2025. A ONU lançou seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável há quase uma década. A inteligência artificial conversa melhor que muita liderança sênior. A pandemia virou aviso, trauma e divisor de águas. E mesmo assim, a maioria dos planos de carreira nas empresas ainda parecem ter sido escritos em 1998.
Fala-se muito em trilhas de desenvolvimento. Mas a verdade é que, mesmo com nomes modernos, a estrutura é antiga: subir, liderar, entregar, controlar.
A escada continua sendo o ícone — não importa se o prédio desabou.
A customização virou moda. Mas será que o RH realmente entendeu o que significa personalizar a jornada de alguém? Ou será que só adaptou um pouco do vocabulário, sem mudar a lógica?
Porque personalizar não é pintar de roxo a caixa cinza. É criar caixas que possam se desmontar.
O choque entre expectativa individual e sistemas coletivos
A pergunta que ecoa entre os corredores, mesmo que ninguém tenha coragem de dizê-la em voz alta, é esta:
Tem espaço para mim nesse sistema? Ou só para a versão comportada, domesticada e LinkedIn-friendly de mim?
A revolução silenciosa que está em curso é essa:
As pessoas não querem mais apenas cargos. Querem propósito, tempo, coerência interna, saúde mental, sentido. Querem um lugar no mundo que não as obrigue a amputar partes de si.
E esse desejo não cabe em trilhas de PowerPoint com caixinhas de soft skills.
O sistema tradicional de desenvolvimento é cartesiano. A vida, não.
E se o plano de carreira for só mais um modelo de obediência?
A ideia de plano de carreira nasceu na era industrial, quando produzir mais e controlar gente era sinal de eficiência. Ainda hoje, ela carrega esse viés de linearidade e fidelidade à estrutura.
Mas vivemos tempos pós-lineares. Transições. Fractais.
O plano que serve para um talento neurodivergente não serve para o analítico ansioso. O plano de quem tem filhos pequenos não será igual ao de quem cuida da mãe doente. O plano da mulher negra que trabalha desde os 13 não pode ser o mesmo do herdeiro da FGV.
E tudo bem. A equidade mora justamente aí.
A carreira como construção simbólica e política
Talvez seja hora de pensar a carreira como um campo de linguagem simbólica. Como uma narrativa. Um experimento vivo entre potência e tempo.
Mais do que promover talentos, deveríamos cultivar vidas inteiras.
Mais do que “reter”, deveríamos nos perguntar: o que essa pessoa quer expandir no mundo?
Se carreira for só ferramenta de controle e produção, perdeu o sentido. Se for ponte entre subjetividade e coletividade, vira arte. E legado.
O que é preciso fazer agora?
- Parar de perguntar “onde você se vê em 5 anos” e começar a perguntar “o que você deseja transformar com o que sabe?”
- Deixar que as pessoas escolham seus próprios verbos: não é todo mundo que quer “liderar”. Tem quem queira “nutrir”, “proteger”, “mediar”, “criar”.
- Abandonar os mapas coloniais de carreira e abrir espaço para cartografias vivas, que mudam de cor, de rota e de idioma — conforme o corpo e a alma que as desenham.
Porque o futuro do trabalho não será apenas tecnológico.
Será simbólico, relacional, ritualístico.
E cada pessoa que pisa numa organização carrega não um plano… mas um chamado.Você está ouvindo o seu? Ou só apertou o botão “seguir plano”?
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
