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Planos de Carreira ou Mapas Coloniais? — Porque o futuro não cabe mais nas trilhas que desenharam para a gente.

em A Outra Sala
terça-feira, 13 de maio de 2025

Ana Luisa Winckler (*)

Carta de abertura à leitora/leitor da Outra Sala

Você já se perguntou se a sua carreira foi uma escolha?
Ou se apenas seguiu a trilha mais batida, a mais segura, a mais premiada socialmente?
Será que você construiu sua trajetória — ou só aprendeu a performar o script de alguém que um dia te disse que sucesso era subir?

Porque talvez seja hora de rasgar os manuais e fazer perguntas que importam. Não sobre onde você quer chegar. Mas sobre quem você quer ser — e que mundo quer deixar.

O dilema da personalização no mundo das planilhas

Estamos em 2025. A ONU lançou seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável há quase uma década. A inteligência artificial conversa melhor que muita liderança sênior. A pandemia virou aviso, trauma e divisor de águas. E mesmo assim, a maioria dos planos de carreira nas empresas ainda parecem ter sido escritos em 1998.

Fala-se muito em trilhas de desenvolvimento. Mas a verdade é que, mesmo com nomes modernos, a estrutura é antiga: subir, liderar, entregar, controlar.
A escada continua sendo o ícone — não importa se o prédio desabou.

A customização virou moda. Mas será que o RH realmente entendeu o que significa personalizar a jornada de alguém? Ou será que só adaptou um pouco do vocabulário, sem mudar a lógica?

Porque personalizar não é pintar de roxo a caixa cinza. É criar caixas que possam se desmontar.

O choque entre expectativa individual e sistemas coletivos

A pergunta que ecoa entre os corredores, mesmo que ninguém tenha coragem de dizê-la em voz alta, é esta:
Tem espaço para mim nesse sistema? Ou só para a versão comportada, domesticada e LinkedIn-friendly de mim?

A revolução silenciosa que está em curso é essa:
As pessoas não querem mais apenas cargos. Querem propósito, tempo, coerência interna, saúde mental, sentido. Querem um lugar no mundo que não as obrigue a amputar partes de si.
E esse desejo não cabe em trilhas de PowerPoint com caixinhas de soft skills.

O sistema tradicional de desenvolvimento é cartesiano. A vida, não.

E se o plano de carreira for só mais um modelo de obediência?

A ideia de plano de carreira nasceu na era industrial, quando produzir mais e controlar gente era sinal de eficiência. Ainda hoje, ela carrega esse viés de linearidade e fidelidade à estrutura.
Mas vivemos tempos pós-lineares. Transições. Fractais.

O plano que serve para um talento neurodivergente não serve para o analítico ansioso. O plano de quem tem filhos pequenos não será igual ao de quem cuida da mãe doente. O plano da mulher negra que trabalha desde os 13 não pode ser o mesmo do herdeiro da FGV.
E tudo bem. A equidade mora justamente aí.

A carreira como construção simbólica e política

Talvez seja hora de pensar a carreira como um campo de linguagem simbólica. Como uma narrativa. Um experimento vivo entre potência e tempo.
Mais do que promover talentos, deveríamos cultivar vidas inteiras.
Mais do que “reter”, deveríamos nos perguntar: o que essa pessoa quer expandir no mundo?
Se carreira for só ferramenta de controle e produção, perdeu o sentido. Se for ponte entre subjetividade e coletividade, vira arte. E legado.

O que é preciso fazer agora?

  • Parar de perguntar “onde você se vê em 5 anos” e começar a perguntar “o que você deseja transformar com o que sabe?”
  • Deixar que as pessoas escolham seus próprios verbos: não é todo mundo que quer “liderar”. Tem quem queira “nutrir”, “proteger”, “mediar”, “criar”.
  • Abandonar os mapas coloniais de carreira e abrir espaço para cartografias vivas, que mudam de cor, de rota e de idioma — conforme o corpo e a alma que as desenham.

Porque o futuro do trabalho não será apenas tecnológico.
Será simbólico, relacional, ritualístico.
E cada pessoa que pisa numa organização carrega não um plano… mas um chamado.Você está ouvindo o seu? Ou só apertou o botão “seguir plano”?

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.