Ana Luisa Winckler (*)
A cidade onde as pessoas fazem fila para pensar
Existem lugares onde as pessoas fazem fila para comprar o celular mais novo.
Outros onde fazem fila para um café que custa quase o preço de um livro.
E existe Paraty.
Durante alguns dias do ano, uma pequena cidade histórica do litoral fluminense vira um estranho fenômeno antropológico: gente atravessa o país para ouvir alguém falar durante uma hora sobre um livro que talvez nunca tenha lido.
Se você nunca foi à FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), provavelmente imagina uma grande livraria a céu aberto.
Não é.
Também não é um congresso.
Nem uma Bienal.
Nem um clube do livro gourmetizado, onde todo mundo cita autores russos enquanto toma vinho natural.
A FLIP parece uma cidade que resolve, por alguns dias, trocar o Wi-Fi pela imaginação.
Escritores dividem a calçada com leitores. Professores conversam com adolescentes. Crianças entram em tendas para ouvir histórias enquanto, na mesa ao lado, alguém discute racismo, inteligência artificial, poesia indígena, democracia ou o fim do mundo.
Sim.
Eu fui convidada justamente para falar sobre o fim do mundo.
Minha mesa chamava-se Como escrever o fim do mundo.
Minha mãe, naturalmente, perguntou se eu não poderia escrever alguma coisa mais alegre.
Pensei em responder que escritores têm um talento curioso: conseguem encontrar esperança justamente quando o cenário parece impossível. Mas preferi dizer que não era uma mesa sobre catástrofes.
Era sobre imaginação.
Porque escrever o fim do mundo talvez seja a maneira mais sofisticada de perguntar como ainda existe tempo para salvar alguma coisa.
Foi ali que percebi um paradoxo.
Enquanto milhares de pessoas caminhavam pelas ruas atrás de livros, conversas e ideias, o Brasil acaba de registrar, pela primeira vez, mais não leitores do que leitores. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 53% dos brasileiros não haviam lido um único livro nos três meses anteriores.
Talvez seja exatamente por isso que feiras literárias estejam crescendo.
Não porque o livro virou moda.
Mas porque, em um mundo que nos oferece respostas instantâneas para quase tudo, encontrar um lugar onde ainda existem perguntas passou a ser um luxo.
E literatura nunca foi sobre respostas.
Talvez por isso eu tenha me tornado psicóloga antes mesmo de saber que seria.
Cresci vendo minha mãe trazer livros para casa como quem trazia visitas. Monteiro Lobato dividia espaço com Agatha Christie. Depois vieram Jorge Amado, Gabriel García Márquez, Milan Kundera e tantos outros que ocuparam um lugar na estante e outro, muito maior, dentro de mim.
Hoje entendo que eles não me ensinaram apenas a gostar de livros.
Ensinaram-me a gostar de pessoas.
A psicologia e a neurociência vêm demonstrando algo que a literatura sempre soube intuitivamente: ler narrativas amplia nossa capacidade de compreender emoções, exercita a empatia, fortalece o pensamento crítico e aumenta nossa habilidade de imaginar perspectivas diferentes das nossas. Não é apenas o vocabulário que cresce. É a consciência.
Talvez seja por isso que um adolescente que lê não apenas aprende palavras novas.
Aprende que existem vidas diferentes da sua.
Descobre que conflitos podem ter mais de uma versão.
Percebe que nem todo herói é impecável e nem todo vilão nasceu vilão.
Exercita, silenciosamente, um músculo que anda perigosamente atrofiado no nosso tempo: a imaginação.
E imaginação não é fuga da realidade.
É a condição necessária para transformá-la.
Saí da FLIP com uma convicção curiosa.
Feiras literárias não existem apenas para vender livros.
Existem para lembrar que pensar ainda pode ser um acontecimento coletivo.
Minha mesa chamava-se Como escrever o fim do mundo.
Voltei pensando que talvez eu tenha entendido o título errado.
O fim do mundo que realmente me preocupa não é apenas o das enchentes, das guerras, da crise climática ou da inteligência artificial.
É um país em que mais da metade das pessoas já não lê.
Porque todo fim do mundo começa muito antes de a Terra acabar.
Começa quando a imaginação encolhe.
Quando deixamos de conseguir habitar a vida do outro.
Quando perdemos a curiosidade.
Quando as perguntas passam a incomodar mais do que as respostas prontas.
Talvez seja justamente por isso que as feiras literárias estejam crescendo.
Não porque vendam livros.
Mas porque ainda fabricam uma matéria-prima cada vez mais rara.
Pessoas capazes de imaginar futuros.
E, pensando bem, talvez seja exatamente isso que escritores fazem.
Não escrevem o fim do mundo.
Escrevem para que ele não aconteça.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
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