Quando a agenda cheia vira um problema de gestão

em Carreira e Mercado de Trabalho
sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Expansão do setor exige que tatuadores conciliem técnica custos estrutura e experiência do cliente

Entre as novas empresas ativas de serviços de tatuagem e colocação de piercing em 2025, 95,9% foram registradas como Microempreendedor Individual, o equivalente a 5.028 estabelecimentos, segundo o Observatório do Sebrae, com dados da Receita Federal. O número ajuda a dimensionar um setor em que muitos profissionais transformam uma habilidade artística em negócio e passam a assumir responsabilidades que vão além da execução técnica.

Felipe Luiz Petruy, tatuador, empresário e mentor especializado em realismo preto e cinza e retratismo, viveu essa transição na prática. Começou profissionalmente na tatuagem em 2019, abriu o próprio estúdio em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, no ano seguinte e, em 2023, transferiu a operação para um espaço maior diante do aumento da procura por atendimentos e mentorias.

Ao longo desse processo, Petruy passou a receber também artistas como MC Drika, Salvador da Rima, MC Pedrinho e MC Vitão do Savoy. A ampliação da procura trouxe uma nova questão para a rotina: além de aperfeiçoar técnica e portfólio, tornou-se necessário administrar estrutura, materiais, custos, atendimento e capacidade de entrega.

“Existe um momento em que saber tatuar deixa de ser a única preocupação. Quando o movimento cresce, começam a aparecer decisões sobre agenda, estrutura, materiais, custos, atendimento e organização do espaço. Se o profissional não aprende a olhar para isso, a parte artística pode estar funcionando muito bem, mas o negócio começa a apresentar problemas”, afirma Petruy.

A mudança de profissional autônomo para gestor traz responsabilidades que nem sempre fazem parte da formação técnica. Precificação, controle financeiro, compra de materiais, relacionamento com fornecedores, organização da rotina e acompanhamento dos clientes passam a dividir espaço com desenhos e sessões.

No caso dos estúdios de tatuagem, há ainda uma responsabilidade relacionada à saúde. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária informa que a atividade é considerada de interesse para a saúde e que o funcionamento do estabelecimento exige licença sanitária emitida pelo órgão municipal competente. Os locais também precisam manter registros dos clientes e dos procedimentos realizados.

“Quando alguém abre um estúdio, não está criando apenas um lugar para tatuar. Existe uma responsabilidade com quem entra naquele espaço. Organização, higiene, procedência dos materiais e cuidado com cada etapa do atendimento fazem parte do trabalho tanto quanto a execução da tatuagem”, diz Felipe.

A Anvisa também orienta consumidores a verificar se o estabelecimento possui autorização para funcionar e mantém condições adequadas de estrutura, conservação e higiene. Equipamentos e utensílios reutilizáveis, quando aplicável, precisam passar pelos processos necessários de limpeza, desinfecção ou esterilização. A agência atualizou essas orientações em abril de 2026.

Da cadeira para a operação
Uma agenda ocupada pode indicar crescimento da procura, mas também expõe limites de capacidade, prazos e estrutura. Para Petruy, essa percepção ficou mais clara quando o aumento dos atendimentos levou à mudança do estúdio para um espaço maior.

“Quando tudo depende de uma pessoa, existe um limite físico de quanto é possível produzir. Crescer não pode significar simplesmente colocar mais clientes na agenda. É preciso criar uma estrutura que consiga acompanhar essa demanda sem prejudicar o trabalho entregue”, explica.

A composição do próprio setor ajuda a entender esse desafio. Segundo o Observatório do Sebrae, as microempresas concentraram 94,2% dos empregos formais registrados em serviços de tatuagem e piercing em 2025. Para quem inicia a atividade sozinho, portanto, tornar-se empresário muitas vezes começa por organizar processos antes conduzidos de maneira informal, como despesas, compras, relacionamento com fornecedores e planejamento dos atendimentos.

Na trajetória de Felipe, o crescimento do estúdio ocorreu paralelamente à especialização profissional. Depois de anos dedicados a cursos, mentorias, premiações e participação em convenções, ele também passou a ministrar formações para outros tatuadores, ampliando sua atuação para além das próprias sessões.

A experiência o levou a perceber que aumentar a procura nem sempre significa estar pronto para crescer no mesmo ritmo. “Durante muito tempo, o foco de quem começa é evoluir tecnicamente, e isso é fundamental. Mas, quando a carreira cresce, percebe-se que técnica e gestão precisam caminhar juntas. O desafio é profissionalizar a operação sem transformar o trabalho artístico em uma linha de produção”, conclui.