Temos saída?

Amadeu Garrido de Paula (*)

A crise do Brasil é crônica. A diferença é a de que a de hoje parece não ter remédio. Pode-se não crer, mas o médico é o PSDB.

Tratamento de longo tempo, sem abandono de princípios e com a capacidade de torná-los palpáveis. O especial do jornal “O Estado” pôs o dedo na ferida. Em que pesem os anos de experiência, o PSDB precisa aperfeiçoar-se. Os erros são didáticos e podem pôr o método na trilha. O povo brasileiro nunca esteve tão desarvorado sobre seu rumo político. Logo, é preciso pensar. Vamos lá.

O PT surgiu do chão das fábricas automotivas, às quais o Brasil foi um paraíso. De todo modo, expandiu-se, fez-se um partido de massas. A definição é de um dos maiores especialistas em partidos, o jurista francês Maurice Duverger. Didaticamente, opôs os modelos: partido de massas (PT) e partido de quadros (PSDB). Ambos de índole social democrática. O partido de quadros passa a impressão de ser popular; o partido de quadros de promover as elites.

É um equívoco. Não é popular um partido de milhares ou milhões de adeptos, porém controlado por uma cúpula, que, no Brasil, deu no que deu. Importam os interesses sustentados e materializados em políticas efetivas. O mesmo se aplica aos partidos de quadros: não é partido de elites, se procura promover o desenvolvimento com justiça social.

As massas do PT ficaram nas mãos da cúpula e, principalmente, de uma personalidade cultuada. Nenhum país em que as massas cultivaram personalidades deu certo. Talvez mais profundos que nós, os budistas consideram falta (pecado) o culto da personalidade. Política é ciência, incompatível com a emoção primária das massas, tão carentes de educação básica, a estrutura fundamental.

O PSDB preferiu os princípios. Capazes de eleger seu melhor quadro. Entretanto, há uma grande diferença entre princípios téoricos, que fazem a felicidade ou infelicidades das academias, e princípios postos em prática. Em política, só valem princípios praticados, testados, mantidos ou modificados. Em seus dois mandatos, foram poucos os princípios corporificados pelo PSDB.

Não há dúvidas quanto aos benefícios das privatizações, em que pesem derrapagens nem de longe comprometedoras de preceitos éticos como os que destruíram o PT; da introdução da telefonia e da informatícia numa aldeia, comparativamente aos países desenvolvidos; e, principalmente, do controle monetário e do controle das finanças estatais, agora lançados a um rio cinzento de poluentes. Correta a identificação do jornal mencionado, do PSDB à oposição.

A outra agremiação expressiva é o PMDB. Jamais seria altertnativa, porque é essencialmente oportunista. Como disse o pesquisador Peter Hakim, emérito conhecedor do Brasil e de outros países da América Latina, livre de paixões e interesses, “O PMDB é tremendamente paciente. Está esperando a autodestruição do PSDB e do PT, os dois partidos que têm políticas sérias e maior chance de eleger um Presidente em 2018. O PMDB tem uma chance maior em eleições em que não há muito debate de idéias e propostas”.

A saída ao PSDB é coragem de dissolver as vaidades, reconhecer quem encarna sua representação e transformar em real seu conjunto de princípios; não mais titubear, além de arrumar a brutal dessarrumação petista, em dar concretude à reforma política, administrativa, tributária, trabalhista, federativa e tantas outras, que só podem ser vistas conectas. Teve oportunidade de fazê-lo e não fez; mas há momentos para tudo. O velho dilema acadêmico: fazer do verbo o fato. Sem precipitações, que não contribuirão para consertar este país, hoje desmantelado.

(*) – É advogado especialista em Direito Constitucional, Civil, Tributário e Coletivo do Trabalho.

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