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O futuro dos serviços financeiros é agora

em Artigos
quinta-feira, 03 de julho de 2025

Spencer Gracias (*)

Na última década, a ascensão dos bancos digitais revolucionou os serviços financeiros e transformou a forma como as pessoas acessam instituições financeiras, seja para transações, investimentos, empréstimos, e outras inúmeras possibilidades, tudo em questão de segundos e por meio de um clique. Mas à medida que a transformação digital acontece e o comportamento do consumidor muda, as novas tecnologias de pagamento serão testadas e, neste contexto, fraudes e golpes financeiros estão crescendo na mesma proporção.

Para se ter uma ideia, no último ano, 54% das grandes organizações no mundo relataram ter sofrido um ataque cibernético que interrompeu seus sistemas de TI, de acordo com o recente relatório Cyber Gauge, publicado pela Kyndryl em parceria com a AWS. No Brasil, segundo dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), fraudes digitais custaram em 2024 mais de R$ 10 bilhões às vítimas, um salto de 17% frente a 2023.

Assim como uma faca de dois gumes, a inteligência artificial pode ser ameaçadora considerando o aumento de golpes, mas, por outro lado, promete melhores estratégias para a prevenção destes mesmos golpes. Agora, no entanto, estamos às portas de uma nova transformação que demanda rapidez — e ela promete ser ainda mais radical.

Se antes vivenciamos uma revolução digital, agora ela será inteligente. Estamos diante de uma era em que a IA deixou de ser um serviço remoto e passou a habitar nossos dispositivos, processos e até auxiliar nas decisões — operando na borda, de forma contínua. Agentes de IA em smartphones, terminais bancários, wearables ou dispositivos IoT, monitoramento de fraudes e compliance com mecanismos de IA quase em tempo real embutidos em cada ponto da transação.

Neste contexto, a IA traz riscos reais e requer ainda mais responsabilidade por parte das empresas. Equilibrar velocidade com governança será um diferencial competitivo. Estou me referindo não só a reimaginar sistemas de pagamento para transações em velocidade de máquina, mas também desenvolver estruturas seguras de identidade digital que criam interfaces financeiras otimizadas para agentes, e não humanos.

Os bancos enfrentam um cenário complexo de fraudes de identidade, que abrange desde o roubo de identidade tradicional e apropriações indébitas de contas até a sofisticada fraude de identidade sintética. Mitigar essas ameaças de forma eficaz exige investimentos substanciais em tempo, recursos e tecnologia. A falha em implementar uma gestão de risco robusta não apenas expõe os bancos a perdas financeiras diretas e interrupções operacionais, mas também acarreta riscos regulatórios significativos, incluindo potenciais penalidades, restrições comerciais, danos à reputação e custos de litígio.

Por outro lado, a adoção de modelos ecossistêmicos no setor bancário, integrando provedores terceirizados para aprimorar a segurança dos serviços é essencial, desde que os acordos contratuais sejam claros, haja um monitoramento contínuo, governança interna sólida e planejamento de contingência. E ainda, levar em consideração que vai ser crucial ter um equilíbrio entre a gestão de risco e a experiência do cliente, que acaba sendo impactada neste contexto quando as várias camadas de verificações são complexas e geram atrasos.

O ponto é que estamos vivenciando uma nova era em que o trabalho intelectual será cada vez mais acelerado e automatizado. Se a transformação antes era vista como um desafio para as empresas do setor financeiro, agora ela é uma necessidade diante um cenário em que há uma crescente complexidade de fraudes envolvendo IA. A única certeza é que temos que estar preparados para esta revolução da inteligência, que será ainda mais veloz do que a última.

(*) Diretor Geral da Kyndryl Brasil.