Liderança consciente: um novo conceito nas relações de trabalho

Luis Giolo (*)

A régua para medir a excelência do líder tem sido estendida, multiplicando as competências exigidas de quem almeja conduzir profissionais em busca de objetivos.

A liderança do novo século ganhou tons vívidos de engajamento e motivação dos liderados. Na atual década, um novo conceito passa a representar o que há de mais contemporâneo no tema: a liderança consciente. Os gestores já entenderam que precisam aguçar a percepção sobre os anseios e necessidades dos membros do time e que o bom desempenho vai muito além do lado técnico, envolvendo as soft skills ou habilidades comportamentais nas relações de trabalho.

Flexibilidade, boa comunicação, resiliência e desenvoltura na gestão da equipe, entre outras características, ganharam muito mais impacto nas escolhas de processos seletivos e igualmente nas decisões de quem fica e quem sai. Nos últimos anos, essas competências foram direcionadas para contextos ainda mais desafiadores.

Governos, empresas, organizações da sociedade civil e a população em geral tornaram-se mais atentos a questões como inclusão social, preservação ambiental e governança (ESG), aplicando esses medidores também para avaliar os perfis dos líderes incumbidos de levar adiante os propósitos de uma convivência mais justa e harmoniosa entre as pessoas.

Um mundo em transformação é natural e inevitavelmente rico em conflitos. Realidades e demandas emergentes precisam ser ajustadas, e as lideranças têm papel crucial nesse processo, muitas vezes atuando como mediadoras entre expectativas, valendo-se para tanto de parâmetros éticos e organizacionais aos quais elas mesmo têm de continuamente se ajustarem.

É nesse cenário que se fortalece o conceito de liderança consciente, expressão sedimentada por John Mackey, CEO da Whole Foods Market. Ele foi, inclusive, um dos autores de um livro sobre o tema. Em suma, o líder nos moldes propostos por Mackey deve se guiar por objetivos mais de longo prazo que imediatos, equilibrando as metas mais urgentes dos negócios a partir de valores e crenças respaldados por novas conjunturas.

Estas invariavelmente miram os preceitos do ESG, que escreve um novo capítulo na história das práticas de sustentabilidade. E desloca a mira estratégica corporativa dos resultados predominantemente financeiros para os que envolvem um legado de integridade das marcas, atendendo a interesses de um contingente cada vez mais variado de stakeholders, de consumidores a acionistas.

Imbuído desses conhecimentos, o líder consciente precisa se pautar pelas consequências de suas ações e de suas escolhas. Inovação, aprendizado, vulnerabilidade, evolução constantes e diversidade são aspectos que têm de estar em seu radar a todo momento, priorizando caminhos que façam convergir essas variáveis e as solidifiquem enquanto pontos-chave da cultura organizacional.

Atender a esses requisitos é tão complexo quanto enriquecedor, não só no âmbito profissional como também no pessoal.

Por sinal, quando se trata de propósito de vida, estabelecer fronteiras entre o comportamento em casa e no trabalho perde o sentido. A construção do caráter do líder consciente não se estabelece a partir de contradições comportamentais de acordo com o ambiente ou a ocasião, uma vez que idealmente se fundamenta na essência do indivíduo, tornando-o um catalisador de mudanças culturais não só nas empresas, mas na sociedade como um todo.

Em um meio em que as transformações correm por incontáveis direções, cada empresa se encontra em um estágio de adaptação e evolução. O mesmo raciocínio vale para os profissionais que transitam no mercado. Assim, os trabalhos de busca e desenvolvimento de líderes também ganham em complexidade e sutilezas e requerem expertises bem orientadas.

O princípio de “consciente” vale para todas as pontas e as formas de integração entre elas. Trata-se da costura de um novo projeto civilizatório, e essa missão exige o envolvimento de players em diversas etapas dessa jornada. Os líderes necessários para conduzi-la precisam estar abertos para as mudanças — e ser preparados para enfrentá-las, começando por si próprios.

(*) – É colíder da Prática de Conselhos e Sucessão de CEOs da Egon Zehnder no Brasil.

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