Elias Zoghbi (*) e João Roberto Benites (**)
A inteligência artificial já não é mais promessa de futuro — é a realidade do presente. Empresas de todos os portes e setores estão descobrindo que adotar essa tecnologia deixou de ser opcional para se tornar questão de sobrevivência no mercado.
Os números impressionam: um estudo da Amazon Web Services mostra que 95% das companhias que usam IA aumentaram suas receitas em média 31%. Quase todas (96%) relatam ganhos significativos em produtividade. O Brasil lidera a América Latina nessa corrida, com 40% das empresas já utilizando a tecnologia — um índice próximo ao da Europa (42%). Mas, há um lado B nessa história de sucesso.
O problema da implementação incompleta
Apesar do entusiasmo, a maioria das empresas continua engatinhando. Pesquisa do TEC Institute em parceria com a MIT Technology Review revela que somente 7,9% conseguiram integrar completamente a IA em suas operações. A grande maioria está em fase de testes (36,7%) ou implementação parcial (25,7%).
O mais preocupante: três em cada quatro empresas não têm profissionais dedicados exclusivamente à governança de IA. Quase metade (46,1%) não possui regras claras sobre o uso ético da tecnologia. É como dirigir um veículo potente sem cinto de segurança — os riscos podem superar os benefícios.
Os exemplos práticos dos perigos já existem: sistemas de IA que discriminam pessoas na concessão de crédito ou favorecem determinados grupos demográficos, gerando processos judiciais e manchetes negativas.
Governança não é luxo, é necessidade
A implementação da IA precisa começar no topo. Não se trata de uma decisão técnica, mas estratégica, que deve envolver a alta direção da empresa. A governança define o que será feito, como evitar riscos e quem responde pelo quê.
Isso significa criar um comitê de supervisão ligado à liderança, responsável por estabelecer políticas de privacidade, estratégias de aplicação e monitoramento constante de resultados e possíveis vieses. Sem essa estrutura, a empresa fica exposta a crises de imagem, vazamentos de dados e problemas legais.
A base invisível: dados e infraestrutura
Toda solução de IA depende de uma fundação sólida. Seja em servidores próprios ou na nuvem, a infraestrutura precisa ser gerenciada, mantida e protegida. Mais importante: os dados que alimentam a IA precisam estar organizados, atualizados e integrados.
Dados fragmentados ou desatualizados podem levar a decisões equivocadas e comprometer todo o investimento. A maioria das organizações precisará reformular sua estratégia de big data antes de colher os frutos da inteligência artificial.
O mundo está de olho: Governança é essencial
O debate sobre regulamentação da IA esquenta em diversos países. A União Europeia propõe regras baseadas em níveis de risco, proibindo usos como sistemas de pontuação social e exigindo transparência. O Reino Unido aposta em regulação gradual, enquanto Singapura busca se posicionar como referência global em IA ética.
No Brasil, o Projeto de Lei 2338/2023 propõe um Marco Regulatório que, segundo críticos, pode ser restritivo demais e frear a inovação. O texto ainda gera preocupações sobre falta de clareza nas atribuições dos órgãos públicos e excesso de controle estatal.
Checklist para assegurar o sucesso
Para implementar IA com segurança e eficácia, as empresas precisam garantir:
Alinhamento estratégico — A IA deve servir aos objetivos do negócio, não o contrário.
Transparência — Clientes e colaboradores precisam saber quando estão interagindo com sistemas de IA.
Conformidade legal — Todas as ações devem respeitar a legislação vigente.
Clareza técnica — Os sistemas precisam ser compreensíveis para permitir avaliação e auditoria.
Gestão de dados responsável — Definir claramente quais dados serão usados, como e por quê, considerando questões éticas e culturais.
Responsabilização humana — Alguém de carne e osso precisa responder por cada modelo de IA implantado.
Monitoramento contínuo — Estabelecer limites, acompanhar o funcionamento e realizar auditorias regulares.
Proteção e equidade — Implementar salvaguardas contra vulnerabilidades, garantir privacidade e evitar discriminações.
Reflexo da cultura empresarial — A IA deve incorporar os valores e a ética da organização.
Envolvimento do negócio — Não deixar tudo nas mãos da área de TI; quem entende do negócio precisa participar ativamente.
O fator humano permanece central
Por mais revolucionária que seja a tecnologia, o maior ativo de qualquer empresa continua sendo seu time. Por isso, planos de capacitação e requalificação profissional são essenciais para as pessoas poderem trabalhar em conjunto com a IA, aproveitando o melhor dos dois mundos.
A adoção bem-sucedida da inteligência artificial depende do equilíbrio de três elementos: eficiência operacional, segurança robusta e governança clara. Empresas que conseguirem construir essa tríade estarão preparadas não apenas para enfrentar os desafios, mas para liderar a transformação em seus setores.
(*) Sócio líder de Tecnologia e da Indústria Financeira da Grant Thornton Brasil
(**) Preside Conselhos de Administração de empresas familiares. Atua como Conselheiro Consultivo da Grant Thornton Brasil e do Hospital das Clínicas (SP). É conselheiro certificado pelo IBGC, especialista em expansão estratégica de empresas.
