
Ana Luisa Winckler (*)
Eu consegui meu primeiro emprego numa coluna de empregos do jornal.
Sim. Jornal. De papel.
Para os mais jovens: era uma espécie de LinkedIn que não sabia quem você era, não sugeria “pessoas que talvez você conheça” e, principalmente, não esperava que você produzisse conteúdo sobre liderança enquanto procurava emprego.
Você abria o caderno de classificados, circulava uma vaga com caneta e pensava: “Essa aqui talvez dê.”
Era praticamente o Tinder profissional, só que sem foto e com vale-transporte.
E aqui começa uma história interessante sobre o que aconteceu com o trabalho.
Naquela época, você procurava uma vaga.
Hoje, além de procurar uma vaga, precisa ser procurável.
E parece pouca diferença. Não é.
No caminho entre o jornal de domingo e o LinkedIn, nasceu uma nova exigência profissional: não basta ter uma carreira. Você precisa parecer que tem uma.
E essa segunda carreira dá um trabalho de lascar.
Foto.
Headline.
Palavras-chave.
Networking.
Engajamento.
Posicionamento.
Publicação.
Você precisa trabalhar e produzir conteúdo sobre como trabalha.
Liderar e contar que lidera.
Aprender e anunciar o aprendizado.
Sair da empresa e publicar que “ciclos se encerram”.
Ser demitido e publicar que “ciclos se encerram”. Alguns, inclusive, por decisão unilateral. Porque aparentemente ficar P da vida prejudica o employer branding.
Às vezes eu acho que o capitalismo conseguiu uma façanha extraordinária: terceirizou para o próprio trabalhador o marketing do trabalhador.
Mas seria simplista transformar o LinkedIn no vilão.
Ele apenas tornou visível uma mudança muito maior.
Hoje não basta produzir valor.
É preciso produzir evidências públicas de valor.
E isso cria uma distorção interessante.
Tem gente extremamente competente que é péssima em se narrar.
Resolve problema.
Forma gente.
Segura crise.
Entrega resultado.
E quando perguntam o que fez: “Ah, eu só fiz meu trabalho.”
Enquanto isso, alguém fez três workshops e já está construindo seu “legado de transformação”.
O problema não é essa pessoa saber se vender.
O problema começa quando aprendemos a confundir visibilidade com competência. Porque são coisas diferentes.
Existe:
ser competente,
ser reconhecido como competente
e ser encontrável como competente.
O mercado digital aproximou as duas últimas perigosamente da primeira.
E aí quem não sabe narrar o próprio valor corre o risco de parecer que não tem valor.
Talvez essa seja uma das mudanças mais silenciosas do trabalho contemporâneo: a carreira deixou de ser apenas uma trajetória profissional. Virou também uma narrativa pública.
Isso significa que todo mundo precisa virar criador de conteúdo corporativo?
Misericooooorrrrdiaaaa, que Deus nos proteja.
Mas significa que posicionamento deixou de ser apenas vaidade. Virou parte da infraestrutura da carreira. Só que existe uma fronteira importante aqui. Uma coisa é construir visibilidade para uma competência. Outra é construir visibilidade no lugar dela.
Daí meu pequeno teste de sanidade profissional: Se amanhã o LinkedIn desaparecesse, quem saberia o que você sabe fazer?
E, talvez mais incômodo: se desaparecessem seu cargo, sua empresa, sua headline e seus seguidores, o que sobraria profissionalmente de você?
Porque meu primeiro emprego veio de uma coluna de jornal. O jornal desapareceu.
Minha carreira, felizmente, não.
Plataformas passam. Algoritmos mudam. Crachás vencem.
E talvez uma carreira sustentável seja justamente aquela que consegue sobreviver ao desaparecimento da vitrine.
Afinal: LinkedIn é vitrine. Carreira é percurso.
Reputação é o que circula sobre você quando você não está na sala.
Competência é aquilo que você consegue fazer mesmo quando ninguém está olhando.
E posicionamento é fazer essas coisas conversarem. Sem precisar escrever “apaixonada por pessoas”.
Porque eu trabalho com RH há mais de 25 anos.
Conheço pessoas. Não recomendo tamanha empolgação.
E agora, seguindo rigorosamente o protocolo contemporâneo:
Se esse texto fez sentido para você, curta.
Se fez muito sentido, comente.
Se conhece alguém para quem faria sentido, compartilhe.
Se não fez sentido, comente também, porque aparentemente discordância dá engajamento.
E, se você chegou até aqui sem curtir, comentar, compartilhar, salvar, me seguir ou ativar algum sininho… tudo bem. Você leu.
Houve uma época em que isso já era considerado bastante.
Saudades do jornal de papel.
Ele nunca me pediu engajamento.
A OUTRA SALA
Porque o trabalho também precisa de terapia.

Ilustração criada por Ana Winckler com auxílio de inteligência artificial (OpenAI).
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
A terceirização da vida psíquica | Jornal Empresas & Negócios
