Neiva Dourado Mendes (*)
Sempre fui uma pessoa que gosta de fazer amizades, conversar, ouvir histórias. Mas não sou muito de sair. Pelo contrário: meu grande prazer está em trabalhar, estudar, ficar com o Jô, conversar com o filho, cuidar da minha casa (que dá um trabalho infinito), assistir séries investigativas (tipo CSI), ler, cuidar dos meus filhos de 4 patas e das minhas plantas. E, ainda assim, raramente saio desses meus 1032 m², a não ser para trabalhar.
Recentemente, tenho sido, de forma bem sutil, provocada pela minha psicóloga (e talvez uma das melhores decisões do último ano tenha sido voltar à terapia) a buscar novos vínculos, novos prazeres. E isso me levou aos materiais da pós: o que, de fato, é prazer no cérebro? A gente ouve muito falar da dopamina, como se ela fosse “o hormônio do prazer”. Mas a verdade é que ela está mais ligada ao desejo e à antecipação do que ao prazer em si. O prazer real, aquele de satisfação, de bem-estar, envolve um sistema mais amplo.
Existe, por exemplo, o papel dos opióidesopioides naturais do cérebro (endorfinas), ligados à sensação de conforto e recompensa mais profunda. Há também a serotonina, associada ao equilíbrio emocional e sensação de contentamento. E, quando falamos de vínculos humanos, entra a ocitocina, que fortalece conexões, confiança e sensação de pertencimento.
Ou seja: prazer não é uma coisa só. É uma orquestra.
E tem mais um ponto importante: o cérebro trabalha com dois sistemas diferentes, um que quer (motivação) e outro que gosta (satisfação). Nem sempre eles andam juntos.
Por isso, podemos querer muito algo e, quando conseguimos, nem achar tão prazeroso assim. Ou, ao contrário, resistir a algo novo e depois perceber que foi bom.
No meu caso, meu cérebro já está muito bem treinado para encontrar prazer em atividades mais internas, previsíveis e sob controle. Para mim, gera segurança, e segurança, para o cérebro, é extremamente valiosa. Mas a neurociência também mostra que o cérebro precisa de variedade e interação social para se manter saudável. Relações humanas ativam regiões ligadas à regulação emocional e até ajudam a reduzir a percepção de ameaça e estresse. A questão não é sair mais. É sobre ampliar possibilidades. Algumas formas mais gentis (e neurocompatíveis) de fazer isso:
Comece pequeno: o cérebro gosta de previsibilidade. Mudanças leves são melhor aceitas do que grandes rupturas.
Misture prazer com novidade: leve algo que você já gosta para um contexto social (um curso, um grupo, uma troca).
Valorize o pós, não só o antes: muitas vezes a resistência vem antes da experiência. Depois, o cérebro registra como positivo.
Conexão não precisa ser intensa: vínculos se constroem também em interações simples e consistentes.
Treine o cérebro para o novo: repetição cria familiaridade. O que hoje parece estranho pode virar confortável.
Talvez o mais interessante seja entender que o cérebro não está “contra” você quando prefere ficar no conhecido. Ele está tentando te proteger. Mas também é possível ensinar, aos poucos, que o novo não é ameaça, pode ser fonte de prazer também. No fim, não se trata de deixar de amar o que já te faz bem. Mas de permitir que o seu cérebro descubra que existem outras formas de sentir prazer, inclusive nas conexões que a gente ainda nem experimentou.
(*) Atual presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).
