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O peso do “não dito” nas empresas familiares

em Manchete Principal
sexta-feira, 10 de abril de 2026

Quando conflitos pessoais atravessam a porta da sala de reunião

A reunião começa tensa. Ninguém fala diretamente sobre o problema, mas ele está presente na sala. Um diretor evita olhar para o outro. Uma decisão estratégica simples parece impossível de ser tomada. O clima é de desconforto e a comunicação confusa. O curioso é que o impasse não começou ali, nem tem relação com a pauta do encontro. A origem está no churrasco de domingo, quando uma discussão familiar acabou atravessando a porta da empresa na manhã de segunda-feira.

Esse tipo de situação é mais comum do que parece nas empresas familiares, onde as fronteiras entre relações pessoais e decisões de negócios nem sempre são claras. Quando emoções e conflitos ficam implícitos, surge o chamado “peso do não dito”, capaz de afetar desde o ambiente de trabalho até a tomada de decisões estratégicas.

Como descreve René Sonneveld no livro The Elephant in the Family Room, empresas familiares são ambientes em que relações pessoais e profissionais estão profundamente entrelaçadas. Nesse contexto, sentimentos como orgulho e confiança podem impulsionar o negócio, mas emoções como medo, inveja ou ressentimento também podem influenciar decisões de forma silenciosa.

Segundo a especialista em desenvolvimento de lideranças e transformação cultural e sócia da Quantum Development, Susana Azevedo, a combinação entre relações familiares e decisões empresariais cria um sistema emocional mais complexo do que em organizações tradicionais. “Podemos ver um tipo diferente de sistema emocional complexo e intenso operando devido à existência de relacionamentos e laços familiares, história familiar, valores familiares e legado familiar. Todo esse cenário pode levar a emoções não ditas que alimentam conflitos não resolvidos, o que pode atrapalhar tanto o sucesso empresarial, o legado quanto a harmonia familiar.”

Susana Azevedo

Esses conflitos silenciosos costumam aparecer em sinais como decisões adiadas, perda de eficiência e dificuldades de alinhamento. “Medo, insegurança, inveja e ressentimento, ego e orgulho, desconfiança e ganância, como em um iceberg, são emoções operando de forma invisível”, explica. Quando esses temas deixam de ser abordados, os impactos podem atingir tanto a empresa quanto a própria família. “Os resultados podem ser exatamente inverso aqueles que se deseja preservar, resultando em incapacidade de sustentar o negócio e relacionamentos familiares degradados.”

Transformar o silêncio em diálogo

Apesar dos desafios, especialistas apontam que existem caminhos para transformar essas tensões em conversas produtivas. “As empresas familiares que têm mais sucesso podem ser aquelas que têm coragem de trazer essas tensões e emoções não ditas à tona e de conduzi-las com humildade e comunicação aberta”, afirma Susana.

Entre as recomendações estão reconhecer explicitamente as dinâmicas familiares presentes no negócio, criar espaços estruturados de diálogo, desenvolver inteligência emocional e conversacional e estabelecer processos mais claros de governança e tomada de decisão. “Estas intervenções, apoiadas de consultores profissionais, especialistas em governança, liderança, gestão e dinâmica de equipes em empresas familiares, oferecem a oportunidade de realmente chegar ao cerne da questão e criar um caminho rumo a um futuro sustentável, ao mesmo tempo em que adaptam o legado familiar às necessidades em mudança entre gerações”, conclui.

Por que a maioria das empresas familiares não sobrevivem aos herdeiros? – Jornal Empresas & Negócios