Neiva Dourado Mendes (*)
Esta frase mudou a forma como eu enxergo as relações profissionais. Alguns anos atrás, durante a implantação de um projeto, enfrentamos problemas técnicos que impactaram a entrega inicial. Eu e o Danilo fomos até o cliente para conversar pessoalmente. Ao final da reunião, agradeci pela forma gentil com que ele nos recebeu.
Ele respondeu: “Por que eu perderia a civilidade?”
Essa frase me atravessou. Foi uma pancada.
Porque perder a civilidade é fácil. Gritar, pressionar, constranger é fácil.
Difícil é sustentar firmeza com educação. É dizer o que precisa ser dito, colocar todos os pontos na mesa e, ainda assim, manter a dignidade da conversa. Com o tempo, porém, percebi algo ainda mais importante: civilidade não é respeito.
Civilidade é forma. Respeito é reconhecimento.
Civilidade organiza a convivência. É o conjunto de regras sociais que mantém o ambiente funcional.
Respeito é enxergar valor. É reconhecer a autoria, trajetória, competência e contribuição. E essa diferença não é apenas conceitual; ela também é neurológica.
A neurociência mostra que nosso cérebro é extremamente sensível a status e pertencimento. O modelo SCARF, desenvolvido por David Rock, descreve cinco domínios sociais que modulam nosso sistema de ameaça e recompensa:
S – Status
C – Certainty (Certeza)
A – Autonomy (Autonomia)
R – Relatedness (Pertencimento / Vínculo)
F – Fairness (Justiça)
Nesse modelo, o status aparece como um dos principais gatilhos do nosso sistema de ameaça e recompensa.
Quando nos sentimos reconhecidos, ativamos os circuitos ligados à segurança, motivação e engajamento. Quando não nos sentimos valorizados, mesmo que tudo esteja “educado” na superfície, o cérebro interpreta a situação como uma ameaça social que, do ponto de vista neural, é percebida de forma muito semelhante à dor física. Por isso, é possível conviver de forma absolutamente civilizada e, ainda assim, não haver reconhecimento. É possível haver cordialidade e, ao mesmo tempo, ausência de valorização.
A ausência de desrespeito não significa a presença de respeito. Entender essa diferença muda a forma como escolhemos nos posicionar, liderar e nos relacionar.
Porque maturidade não é apenas manter a forma; é também ter coragem de se libertar da dor, mesmo que isso signifique romper relações perfeitamente civilizadas. A civilidade mantém a mesa organizada. O respeito é o que garante que todos à mesa sejam verdadeiramente vistos.
(*) Atual presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).
