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Se o sistema precisa tanto de crianças, por que ele tornou a maternidade tão difícil?

em A Outra Sala
terça-feira, 10 de março de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

Tem uma pergunta que continua perseguindo as mulheres com a persistência de um pop-up que não tem botão de “fechar”.

“E os filhos?”

Ela aparece no almoço de domingo.
Na consulta médica.
No casamento da prima.

E no mundo corporativo ela aparece disfarçada de planejamento estratégico.

“E seus planos para os próximos anos?”

A sociedade gosta de tratar essa pergunta como algo íntimo, romântico, quase poético.

Mas, na prática, ela sempre foi uma questão logística.

Durante séculos, alguém precisava garantir três coisas básicas para o funcionamento da civilização:

  1. que mais humanos nascessem
  2. que esses humanos sobrevivessem
  3. que esses humanos chegassem adultos ao mercado de trabalho

E a solução encontrada pela humanidade foi extraordinariamente simples:

mulheres.

Mulheres engravidam.
Mulheres cuidam.
Mulheres organizam a vida doméstica.
Mulheres fazem a gestão emocional da família inteira.

Tudo isso enquanto o resto do sistema segue funcionando como se isso fosse apenas… amor.

O detalhe curioso é que ninguém nunca chamou isso de infraestrutura social.

Chamaram de instinto.

Chamaram de vocação.

Chamaram de “coisa de mulher”.

Só que aconteceu um pequeno problema histórico.

As mulheres começaram a estudar.

Depois começaram a trabalhar.

Depois começaram a ganhar dinheiro.

Depois começaram a perceber que a vida pode ter outros formatos além do roteiro padrão:
casar – ter filhos – dar conta de tudo – dormir pouco – entre um ansiolítico e outro – repetir.

E então surgiu uma pergunta meio inconveniente: “Mas eu realmente quero isso?”

Não é “posso”?

Não é “devo”?

É Quero?

E quando muitas pessoas começam a fazer a mesma pergunta ao mesmo tempo, isso deixa de ser filosofia de bar.

Vira demografia.

Hoje o Brasil tem cerca de 1,5 filho por mulher.

Para uma população se manter estável seriam necessários 2,1.

Ou seja: o sistema demográfico está olhando para as mulheres e dizendo:

“Gente… isso aqui não está batendo.”

E não é só no Brasil.

Japão.
Coreia do Sul.
Itália.
Alemanha.

Metade do mundo desenvolvido está tentando descobrir como convencer mulheres a ter mais filhos.

Alguns países estão oferecendo bônus financeiros.

Outros dão licença parental gigantesca.

Outros estão literalmente fazendo campanhas públicas tipo: “Por favor, tenham bebês.” É quase um marketing de fertilidade.

Mas existe um detalhe curioso nessa conversa. Quando os governos começam a se preocupar com a queda da natalidade, o argumento raramente é: “Queremos que as mulheres tenham vidas mais felizes.”

O argumento costuma ser outro. “Quem vai sustentar o sistema?”

Porque alguém precisa pagar aposentadoria.

Alguém precisa trabalhar.

Alguém precisa manter a economia funcionando.

E, de repente, o mundo percebeu uma coisa meio constrangedora: o sistema inteiro sempre contou que as mulheres fariam uma quantidade absurda de trabalho invisível.

Gerar gente.
Criar gente.
Organizar gente.

Sem que isso fosse tratado como política pública.

Era tratado como destino.

Só que agora as mulheres estão olhando para esse arranjo histórico e fazendo uma pergunta que deixa todo mundo um pouco desconfortável:

Quem desenhou esse sistema assim?

Porque a equação sempre foi mais ou menos essa:

A sociedade precisa de crianças. Mas não quer reorganizar trabalho, carreira, renda e cuidado para que criar crianças seja sustentável.

Então a conta sempre foi fechada do mesmo jeito.

Com mulheres.

E quando algumas mulheres começam a dizer que talvez não queiram assumir essa equação sozinhas, a reação costuma ser curiosa.

Alguns dizem que é egoísmo.

Outros dizem que é crise de valores.

Outros dizem que é excesso de carreira.

Mas talvez seja apenas uma mudança de perspectiva.

Porque, pela primeira vez na história recente, muitas mulheres têm algo que gera efeitos colaterais interessantes: opção.

E quando opção aparece, uma coisa estranha acontece.

As pessoas começam a olhar para certas estruturas sociais… e perceber que elas nunca foram naturais.

Elas eram apenas convenientes para quem as desenhou.

E talvez seja isso que esteja acontecendo agora.

Não é que as mulheres tenham parado de querer filhos.

É que elas começaram a perguntar uma coisa que ninguém fazia antes: se o sistema precisa tanto deles… por que ele foi construído de um jeito que torna a maternidade tão difícil?

E essa pergunta, curiosamente, ainda não tem PowerPoint pronto para responder.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.