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Autenticidade dá lucro? Ou só dá trabalho?

em A Outra Sala
terça-feira, 15 de julho de 2025

Ana Winckler (*)

Ser uma pessoa autêntica no ambiente corporativo ainda é um ato de coragem. Mas também é, e talvez sobretudo, um ato estratégico.

Não falo de autenticidade performada, daquela que vira mote de campanha de diversidade com filtros de LinkedIn. Falo da autenticidade de verdade. Aquela que começa quando uma pessoa se permite ser inteira e, ao fazer isso, dá permissão para que outras façam o mesmo.

Mas dá para sustentar isso num sistema que valoriza controle, padronização e entrega em tempo recorde?

Dá, se houver intencionalidade. E cultura.

Porque onde há espaço para autenticidade, floresce um bem valioso e cada vez mais escasso: confiança mútua. E a confiança, segundo o relatório State of the Global Workplace 2024 da Gallup, é o principal preditor de engajamento e inovação nos times.

Na vida real, é mais complexo do que no post.

Na prática, a tal “cultura da autenticidade” esbarra em organogramas engessados, líderes despreparados para lidar com emoção no trabalho e métricas que ainda medem “produtividade” como quem mede produtividade em linha de montagem.

O resultado? Gente sufocada tentando caber no PPT, escondendo sotaques, dores, pronomes, experiências e verdades. A máscara custa caro. E o burnout, mais ainda.

Em uma visão prismática, não existem fórmulas prontas.

Gente de verdade só floresce em espaços onde a essência tem lugar. E isso exige coragem de escutar, sensibilidade para conectar e maturidade para respeitar o que cada um traz de único.

Na Psicologia Humanista, Carl Rogers fala em congruência: um alinhamento entre o que sentimos, pensamos e expressamos. No mundo do trabalho, isso parece utopia. Mas é também uma bússola: quanto mais distantes estamos da nossa essência, mais próximos do adoecimento ficamos. E isso não é papo “soft”. É ciência.

Autenticidade não é sobre impacto visual. É sobre impacto relacional.

Num mundo onde a inovação virou obsessão, talvez o maior diferencial competitivo seja um ambiente onde ninguém precise ensaiar a própria existência. Onde a criatividade não precise pedir licença. Onde o erro não seja punido antes de ser compreendido.

E se a transformação que você procura começasse simplesmente por deixar as pessoas serem quem são?

Eu ouso ser autêntica. E você? “Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar.” – Clarice Lispector

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.