
Os preços de chips de memória dispararam nos últimos meses, impulsionados pela crescente demanda de centros de dados voltados à inteligência artificial.
Vivaldo José Breternitz (*)
O aumento já está impactando o setor de eletrônicos de consumo, especialmente o mercado global de smartphones, que deve encolher cerca de 13% em 2026.
Segundo relatório da consultoria International Data Corporation (IDC), as vendas globais de smartphones devem somar cerca de 1,1 bilhão de unidades neste ano, contra 1,26 bilhão em 2025, contrariando previsões anteriores que estimavam uma queda menor, de até 5,2%.
Francisco Jeronimo, vice-presidente da IDC, afirmou que a escassez de memória não é uma interrupção temporária, mas um “choque em escala de tsunami na cadeia de suprimentos”. Ele alertou que os efeitos já atingem todo o setor de eletrônicos e que a situação deve piorar ainda mais.
O relatório destaca que o segmento de smartphones mais baratos será o mais afetado, já que suas margens reduzidas deixam pouco espaço para absorver aumentos de custos.
Regiões como Oriente Médio e África, onde predominam vendas de aparelhos básicos, devem sofrer retração de 20,6% ano a ano. Já os dois maiores mercados globais, China e Ásia-Pacífico, devem cair 10,5% e 13,1%, respectivamente.
De acordo com Nabila Popal, diretora de pesquisa da IDC, o preço médio de venda dos smartphones pode subir 14%, chegando a US$ 523 em 2026. Isso deve reduzir ainda mais a demanda dos consumidores de menor poder aquisitivo e pode forçar pequenos fabricantes a sairem do mercado.
Embora os preços possam se estabilizar em meados de 2027, dificilmente retornarão aos níveis pré-crise, tornando o segmento de aparelhos de custo abaixo de US$ 100 permanentemente inviável.
Gigantes como Apple e Samsung são vistos como mais preparados para absorver o impacto desses aumentos de custos. Jeronimo avalia que as duas empresas não apenas resistirão à crise, como podem ampliar participação de mercado em função das dificuldades dos fabricantes menores.
A escassez de memória também elevou os preços de placas gráficas, SSDs e HDs, tornando outros dispositivos, como notebooks, mais caros. Consoles de videogame enfrentam pressão semelhante: o Nintendo Switch 2 deve chegar ao mercado com preço mais alto, e a Sony estaria considerando adiar o lançamento de seu próximo PlayStation para 2028 ou 2029, em resposta às limitações de fornecimento.
É mais um impacto da inteligência artificial em nosso cotidiano.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].




