
O caráter @ ficou esquecido num canto do teclado das máquinas de escrever durante um século; só chegou ao mundo dos computadores e smartphones porque os teclados destes foram simplesmente copiados dos daquelas máquinas.
Vivaldo José Breternitz (*)
Mas o velho @ voltou à cena, e em grande estilo: aparece em bilhões de endereços eletrônicos ora existentes e nos cerca de 400 bilhões de e-mails remetidos todos os dias.
E como isso aconteceu? Em 1971, Ray Tomlinson era um profissional de informática que prestava serviços ao governo americano em um projeto ligado à ARPANET, a rede de computadores que precedeu a Internet. Havia desenvolvido um programa chamado SNDMSG que servia para a troca de mensagens entre os envolvidos no projeto; mas havia um detalhe: o programa exigia que todos os usuários utilizassem o mesmo computador (um PDP-10), e, atenção: era a mesma máquina, e não uma igual; as mensagens ficavam sempre armazenadas no mesmo computador!
Buscando aperfeiçoar o processo, Tomlinson criou uma versão do programa que possibilitava a troca de mensagens entre diferentes máquinas. Para isso, era necessário que o emissor da mensagem identificasse o destinatário, dizendo seu nome e para qual máquina a mensagem deveria ser enviada; nesse momento, começou a ser utilizado o símbolo @ e surgiu a estrutura atual de endereços eletrônicos, alguma coisa como “receptor@maquinatal”.
E por quê @? Segundo Tomlinson, porque o símbolo @ era utilizado em alguns idiomas, dentre o eles o inglês, para indicar preços unitários, algo como “10 laranjas @ (por) R$ 1 cada”; em inglês, este “por” é escrito como “at”, que também pode significar “em” ou “na”, o que justifica a estrutura acima mencionada: “receptor @ (na) máquina tal”. Além disso, por não ser um caráter comum, haveria menos risco de que houvesse erros quando de seu uso.
O primeiro e-mail entre duas máquinas, curiosamente instaladas lados a lado, foi enviado em 1971 e seu conteúdo foi “QWERTYUIOP”, as dez letras que compõem a primeira linha de letras dos teclados.
O @ fora incorporado aos teclados das máquinas de escrever ao redor de 1880, mas parece que no latim utilizado no século VI o símbolo já era usado, com um significado análogo ao que já mencionamos, voltado para o mundo das transações comerciais. Em português e espanhol, confirmando essa teoria, o @, mesmo antes dos computadores, designava uma unidade de peso, a arroba.
Nos idiomas em que não era comum o uso do @ com significado voltado aos negócios, a popularização dos e-mails gerou nomes curiosos para o caráter: em alguns casos, ele é chamado “caracol”, como no francês (escargot) e italiano (chiocciola). De forma semelhante, é chamado em húngaro “kukac” (verme).
Em outros países e idiomas também se faz referência a animais: Alemanha, kammeraffe (macaco-aranha); Russia, sobaka (cão); Polônia, małpa (macaco); Romenia, coadă de maimuţă (cauda de macaco) etc.
O @ tornou-se tão importante que até ganhou um sinal próprio em Código Morse, sendo o único símbolo adicionado ao Código desde a Primeira Guerra Mundial.
Realmente nada mal para quem estava esquecido num cantinho…
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected]




