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Uma provocação de Yuval Harari sobre inteligência artificial

em Tecnologia
quinta-feira, 25 de junho de 2026

Em janeiro passado, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, o historiador e filósofo israelense Yuval Harari lançou uma provocação: pensar a inteligência artificial como uma nova forma de imigração, muito mais intensa do que todas as ondas de imigração já acontecidas.

Vivaldo José Breternitz (*)

Para ele, os produtos da IA, os “imigrantes digitais”, não apenas ocuparão postos de trabalho, mas também transformarão culturas, línguas e a vida cotidiana. Se a sociedade decidir manter essas mudanças sob controle, precisa agir desde já, regulamentando o tema, pois em cinco anos, estima Harari, será tarde demais.

Já se sabe do potencial disruptivo da IA, especialmente no campo econômico: seu impacto já começa a ser sentido, com empresas usando a tecnologia como justificativa para demissões em massa. Oportunidades de trabalho em funções de entrada na área de desenvolvimento de software estão em declínio; outras áreas devem ser impactadas em breve. A IA já interpreta exames radiológicos, compõe músicas, dirige táxis. Mesmo sem atingir a chamada “inteligência artificial geral”, anunciada por executivos do setor, o poder atual da tecnologia já ameaça provocar uma ruptura econômica que pode atingir proporções históricas.

A jornalista alemã Katrin Bennhold abordou recentemente os aspectos políticos do tema, escrevendo para The World, newsletter global do The New York Times.

Segundo ela, a história mostra que grandes transformações econômicas raramente ficam restritas ao campo econômico. No século XVIII, a Revolução Industrial, impulsionada pela máquina a vapor, converteu uma Europa de agricultores em uma sociedade de operários. O processo foi longo e doloroso: décadas de trabalho extenuante, cidades poluídas e queda na expectativa de vida.

Dessa experiência nasceram a consciência de classe, o movimento operário e correntes políticas como o marxismo e a social-democracia. Mais tarde, a Grande Depressão dos anos 1930 levou à criação de redes de proteção social e ao fortalecimento do conceito de Estado de bem-estar social.

Nem sempre é preciso uma mudança dessa magnitude para gerar efeitos políticos profundos. O chamado “choque da China”, entre 1999 e 2011, quando cerca de 2 milhões de americanos perderam seus empregos em função do aumento da presença chinesa nos fluxos de comércio global, alimentou ressentimentos que ajudaram a eleger Donald Trump e elevaram tarifas a níveis não vistos desde os anos 1930.

Agora, especialistas como Erik Brynjolfsson, da Universidade de Stanford, alertam que a IA pode afetar não milhões, mas dezenas ou centenas de milhões de trabalhadores; mesmo os otimistas reconhecem que a transição será turbulenta. “O bolo vai crescer muito”, diz Brynjolfsson, “mas sem controle, muita gente será prejudicada e ficará insatisfeita”.

Já há sinais de resistência: tem acontecido protestos contra a instalação de centros de dados em países como Canadá, Chile, Japão, Estados Unidos e Irlanda, motivados principalmente pelos problemas ambientais causados por essas estruturas. Pesquisas mostram que a IA é mais impopular nos EUA do que a agência de imigração (ICE – Immigration and Customs Enforcement), envolvida em episódios de violência. Analistas acreditam que eleições futuras poderão ser decididas por questões ligadas à tecnologia, especialmente IA.

Estudiosos do assunto destacam alguns pontos que também devem ser levados em consideração: em primeiro lugar, o futuro da IA ainda está sob controle humano: decisões políticas e regulatórias determinarão se ela substituirá ou complementará o trabalho humano e como a riqueza gerada será distribuída. Em segundo lugar, os primeiros e principais atingidos não serão operários, mas trabalhadores do conhecimento, como jornalistas e advogados, justamente aqueles acostumados a exercer influência política.

O terceiro ponto são os aspectos de natureza política: da esquerda, da direita e até mesmo do Papa, há pedidos de regulação e isso pode dar origem a novas coalizões políticas.

Se a Revolução Industrial levou um século para se consolidar, a revolução da IA pode se desenrolar em apenas uma ou duas décadas. O futuro econômico e político ainda é incerto, mas uma coisa parece clara: não será preciso esperar muito para descobrir como essa nova “onda migratória digital” vai redesenhar nossas sociedades.

Por tudo isso, vale a pena refletir, com urgência, sobre a provocação de Harari.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].

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