Terceira idade e tecnologia: A necessidade de inclusão e a adaptação do mercado

Os 60 são os novos 40: os “novos seniores” trabalham, se exercitam, se locomovem e continuam independentes de seus familiares

Nicolle Perico (*)

Além disso, estão cada vez mais utilizando recursos tecnológicos. Em um primeiro momento, ler que os seniores fazem uso de tecnologia pode não nos parecer condizente com a realidade, mas é o que vem acontecendo. Decorrente do aumento da expectativa de vida e pelo maior apelo de convívio social (presencial ou a distância), eles têm utilizado cada vez mais smartphones e tablets.

A população mundial de idosos tem tido um crescimento significativo, cerca de 3% nos últimos anos, e deve chegar a 1,4 bilhão em 2030, de acordo com a ONU. E não precisamos ir tão longe: quando analisamos os números no nosso país, vemos que 13% da nossa população é formada pelo público sênior, o que é um número bastante representativo (cerca de 29 milhões de brasileiros).

Segundo uma pesquisa feita pelo SPC Brasil, os sêniores detêm poder alto de compra e estão com a vida financeira mais estável, o que aumenta seu potencial de consumo e sua disposição para gastar mais – e em produtos de melhor qualidade. Dados como esse mostram uma crescente importância deste público para o mercado, fazendo com que empresas de diversos ramos, como o financeiro por exemplo, estejam direcionando suas pesquisas e investindo cada vez mais em ações e produtos customizados. Resumindo, os sexagenários de 2020 ainda trabalham, consomem bastante, utilizam o transporte público e estão cada vez mais conectados e adaptados às novas tecnologias.

Quando pensamos no contexto atual em que estamos vivendo na pandemia do Covid-19, e com esta faixa etária sendo um dos principais grupos de risco de contaminação, a utilização de tecnologias para as mais diversas tarefas torna-se ainda mais essencial. Seja para a atuação ainda no mercado de trabalho ou para minimizar o distanciamento físico exigido hoje, métodos de trabalho remoto e de manter contato com amigos e familiares passaram a fazer parte dos novos hábitos de todos.

Somando a esse novo cenário, especialistas em geriatria já apontavam que o uso de smartphones e outros aparelhos geram aprendizado de uso e estimulam a manutenção do sistema cognitivo, sendo extremamente benéfica. Cabe às empresas pensarem em soluções que possam facilitar o uso da tecnologia para este crescente público e estimularem seu uso.

Assim como no design inclusivo e no design universal, há a necessidade de conscientização pelos diversos públicos durante o processo projetual – sendo a terceira idade, mais do que nunca, parte deste contexto.

Os profissionais à frente de soluções na experiência do usuário, criação e solução de produtos de tecnologia, sejam eles físicos ou digitais, têm a possibilidade (e o dever) de se atentar a isso. Assim como no design inclusivo e no design universal, há a necessidade de conscientização pelos diversos públicos durante o processo projetual – sendo a terceira idade, mais do que nunca, parte deste contexto. Fontes e áreas de clique maiores, calibre no contraste de cores, atenção no uso demasiado de elementos em tela e informações claras de uso são alguns poucos exemplos que podem facilitar a utilização de produtos digitais para os idosos. Além disso, muitas soluções podem, mais que incluir usuários seniores, ajudá-los a levar a vida mais facilmente. Veja alguns exemplos abaixo:

Bancos e soluções financeiras: é possível facilitar o uso de aplicativos e soluções digitais de bancos e empresas do ramo financeiro, tornando o sênior hábil para fazer suas transações e pagamentos sem ter que se deslocar até uma agência. Esse público também é o mais vulnerável a fraudes, portanto pensar soluções que os proteja mais é algo que precisa ser olhado;

Serviços de entrega: assim como soluções bancárias, aplicativos de entregas também podem aumentar a autonomia do sênior frente a atividades corriqueiras. Relatórios de tendências de todo o mundo apontam um aumento de retiradas e entregas em domicílio. Portanto, atentar para essa experiência é fundamental;

Auxílio saúde: dispositivos e aplicativos de monitoramento, alertas e lembretes já têm sido usados para a manutenção e controle da saúde do sênior. Contudo, há um espaço para que haja uma maior adoção, incluindo planos de saúde mais adaptados e customizados à realidade dessa faixa etária. Muito se fala da ampliação do “e-health” e do “home care” nesse novo contexto que vivemos;

Comunicação e inclusão social: já sendo os mais utilizados por esse público, os aplicativos de troca de mensagens reduzem a sensação de isolamento que atingem muitos seniores, e os aproximam de seus familiares;

Entretenimento: atividades recreacionais distraem e possibilitam um passatempo extra a eles, como também podem estimular as capacidades motora e cognitiva, e até prover interações sociais.

Estes são apenas alguns exemplos de como podemos facilitar a vida da população da terceira idade, tanto frente ao contexto atual, quanto para o futuro. Algumas tendências, tornam-se ainda mais fortes. Entre elas,a ausência de contato físico e também de papéis. Novos hábitos a partir dessa virada de chave precisarão ser incorporados e, portanto, a inclusão digital desse grupo mais vulnerável torna-se iminente.

E a sua empresa, já está pensando neste público?

(*) É UX Designer na ilegra, empresa global de design, inovação e software

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