
Investidores estão cada vez mais inquietos diante das cifras astronômicas que empresas de inteligência artificial vêm destinando à expansão de sua infraestrutura.
Vivaldo José Breternitz (*)
A Amazon, por exemplo, viu suas ações despencarem no início de fevereiro após anunciar que pretende investir nessa área US$ 200 bilhões apenas em 2026. A Microsoft também sofreu forte queda, alimentando temores de que o retorno sobre esses investimentos, se acontecer, possa demorar ainda mais do que o previsto.
No total, as gigantes da tecnologia devem desembolsar um recorde de US$ 650 bilhões em IA no próximo ano, valores que deixaram Wall Street em estado de alerta máximo.
Analistas alertam para o perigo de uma bolha. Um levantamento do Bank of America com 162 gestores de fundos revelou que 35% acreditam que as corporações estão exagerando nos gastos de capital, recursos usados para adquirir, atualizar e manter ativos físicos, em proporção inédita nos últimos 20 anos. Apenas 20% apoiaram o aumento desses investimentos.
A ameaça de uma bolha de IA já é vista como o maior risco por 25% dos entrevistados, superando preocupações com inflação e conflitos geopolíticos. Além disso, 30% apontaram os gastos com IA como a fonte mais provável de uma crise de crédito, que se vier, deve afetar o mundo como um todo.
O retrato é sombrio: os resultados do levantamento sugerem que as big techs estão ultrapassando os limites, queimando dezenas de bilhões de dólares a cada trimestre.
Mesmo assim, líderes do setor seguem defendendo os aportes. O CEO do Google, Sundar Pichai, classificou o momento como “extraordinário” e “transformador” durante a Cúpula de IA em Nova Délhi, comparando a revolução da inteligência artificial à industrial, “mas dez vezes mais rápida e dez vezes maior”.
Já o CEO da Nvidia, Jensen Huang, tentou acalmar os investidores, afirmando que os investimentos em IA são apenas o começo. Analistas, no entanto, permanecem céticos.
“Diria que os clientes têm razão em se preocupar com uma bolha de IA, porque há muita incerteza”, declarou Ben Preston, consultor da Orbis, uma gestora global de investimentos, ao Financial Times.
Vale lembrar o sociólogo Robert Merton, que cunhou em 1949, a expressão “profecia autorrealizável” para explicar como a previsão de que algo negativo acontecerá influencia as ações dos envolvidos e acaba fazendo com que essa previsão se torne realidade – e de tanto falar-se em estouro da bolha, pode ser que ele acabe acontecendo.
E atenção: se a bolha estourar, o Brasil não ficará imune!
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].


