408 views 4 mins

Robôs humanoides: hype ou realidade?

em Tecnologia
sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Robôs humanoides são aqueles cuja aparência lembra a de um ser humano, bípedes de corpo ereto, com dois braços, olhos, nariz e boca.

Vivaldo José Breternitz (*)

Empresas ligadas à produção desses robôs dizem que nos próximos anos eles transformarão o mundo do trabalho. Com essa narrativa, têm atraído montanhas de dinheiro em investimentos.

No entanto, a realidade parece ser um pouco diferente, pois para cumprir tais promessas, e consequentemente justificar os investimentos, será necessário produzir em escala muito grande, apesar de promessas como a da Agility Robotics que prevê entregar “centenas” de unidades de seu modelo Digit em 2025, e possui uma fábrica capaz de fabricar mais de 10 mil robôs por ano. A Tesla planeja vender 5 mil unidades de seu Optimus em 2025 e chegar a 50 mil em 2026. Já a Figure projeta alcançar 100 mil robôs até 2029.

Instituições financeiras falam em números díspares: o Bank of America estima que em 2025 o mercado global registre 18 mil vendas de robôs humanoides, enquanto o Morgan Stanley projeta um bilhão dessas máquinas em operação até 2050, num mercado avaliado em US$ 5 trilhões.

Por ora, entretanto, o mercado é quase totalmente hipotético; até mesmo as empresas mais avançadas contam apenas com projetos-piloto. Os números grandiosos partem de suposições sobre tarefas que robôs humanoides eficientes e seguros, mas ainda inexistentes, poderiam executar.

Fabricar grandes quantidades desses robôs é tecnicamente viável: em 2023, cerca de 500 mil robôs industriais foram instalados no mundo. Contudo, segundo Melonee Wise, que foi Chief Product Officer da Agility, o desafio central está na demanda. Segundo ela, “ninguém encontrou ainda uma aplicação que justifique milhares de robôs por instalação”.

Outro ponto crítico é a inteligência artificial. Há quem acredite que os avanços rápidos em IA inevitavelmente levarão a robôs multifuncionais, mas, segundo Wise, a tecnologia ainda não é robusta o suficiente para atender às exigências do mercado. Essas exigências incluem fatores como vida útil da bateria, confiabilidade e segurança.

O Digit, por exemplo, pode carregar até 16 quilos e tem autonomia de 90 minutos, recarregando em nove. Mas, na prática, precisa parar após meia hora de operação para manter uma reserva de energia, o que é um problema em ambientes com centenas de unidades pesando mais de 100 quilos cada. Já em termos de confiabilidade, empresas esperam taxas muito altas, pois minutos de inatividade podem custar dezenas de milhares de dólares.

A questão da segurança também é central. Diferentemente de setores que cresceram sob regulamentação branda, como veículos autônomos e drones, os humanoides se enquadram em normas industriais rígidas; empresas do setor trabalham com a ISO para criar padrões específicos de segurança para esses robôs.

Apesar do fascínio pelo formato humanoide, resta a dúvida se eles deixarão de ser apenas hype; robôs sobre rodas e braços mecânicos já oferecem soluções baratas e eficientes em muitas situações.

Em resumo: robôs humanoides talvez um dia revolucionem o mundo do trabalho, mas ainda há barreiras técnicas, regulatórias e de mercado que precisam ser superadas.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].