
Fundada em 2023, a Enter é uma legaltech brasileira que usa IA para apoiar empresas que tem grande volume de ações na Justiça, o chamado contencioso em massa. Já prestou serviços envolvendo cerca de 300 mil processos de clientes como Nubank, Bradesco, Mercado Livre e LATAM. É avaliada em US$ 1,2 bilhão.
Vivaldo José Breternitz (*)
A IA da Enter cruza o que está nos processos com a jurisprudência e sugere caminhos para a defesa, principalmente em ações trabalhistas, prometendo economia de até 40% nos litígios.
Agora, como informa o portal TechDrops, a Enter é a primeira legaltech a se tornar alvo de uma ação civil pública movida pela OAB-SP. Na ação, a entidade diz que a Enter não é uma sociedade de advogados e estaria exercendo a profissão ilegalmente, executando atividades exclusivas de advogados.
Por sua vez, a Enter afirma que não substitui advogados, mas sim que presta serviços a departamentos jurídicos de empresas. Também divulgou os resultados da primeira pesquisa que mensurou seu impacto junto a seus clientes, mostrando que pode aumentar em até 43% os casos de sucesso desses clientes. A pesquisa foi conduzida pela Bain, uma das maiores empresas de consultoria estratégica do mundo.
Parece claro que a OAB está movendo essa ação preocupada com o fato de a advocacia estar entre as profissões que mais devem perder espaço pelo avanço da IA, com boa parte do trabalho dos advogados podendo, potencialmente, ser automatizado.
Fora do Brasil, o assunto é tratado de forma diferente: a legaltech Legora, avaliada em US$ 5,6 bilhões, firmou um acordo com a equivalente sueca à OAB para oferecer aos advogados, em condições vantajosas, serviços semelhantes aos prestados pela Enter. Atuando na mesma área, a americana Harvey, avaliada em US$ 15,5 bilhões, já atende 80% dos maiores escritórios de advocacia dos Estados Unidos. Naquele país, a American Bar Association, entidade equivalente à OAB, publicou orientações para o uso de IA, mas não tentou proibir seu uso. Nenhuma dessas atende exatamente o mesmo mercado, pois tem como clientes escritórios de advocacia, enquanto a Enter atende a departamentos jurídicos.
No Brasil, qualquer medida para aumentar a eficiência da Justiça seria bem-vinda, pois em 2025 estávamos no 78º lugar entre 143 países avaliados pelo World Justice Project (WJP) nesse quesito. O WJP é uma organização independente dedicada ao fortalecimento do Estado de Direito.
No entanto, apenas estamos vendo a OAB adotar uma postura corporativista.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor da FATEC SP, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].



