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O futuro do software está na colaboração com a IA

em Tecnologia
sexta-feira, 11 de julho de 2025

Durante décadas, o domínio sobre linguagens, frameworks e bibliotecas era o centro gravitacional das discussões técnicas e das decisões de negócio. No entanto, o estudo da McKinsey prevê que a inteligência artificial (IA) poderá automatizar até 30% das tarefas de codificação até 2030, liberando desenvolvedores para se concentrarem em estratégia e inovação. Com isso, a emergência da IA generativa, capaz de produzir, revisar e refatorar código com velocidade inédita está sendo redefinida, e o código-fonte, pela primeira vez em décadas, está passando a ser uma construção homem+máquina. A IA torna a escrita e a reescrita de código tarefas mais colaborativas, permitindo que códigos mal estruturados sejam corrigidos rapidamente e soluções legadas sejam substituídas a custos reduzidos.

Nesse contexto, o verdadeiro desafio que a automação não resolve está em alcançar clareza sobre o que deve ser construído e por quê, tornando a capacidade de conceber soluções originais, escaláveis e alinhadas aos problemas certos a nova barreira de entrada no desenvolvimento de software. Em muitos casos, refazer um sistema do zero pode ser mais econômico do que mantê-lo, o que reforça que o diferencial competitivo passa a estar mais no desenho estratégico daquilo que será executado. Empresas como a Netflix exemplificam isso com sua arquitetura de microserviços, que permite escalabilidade global e colaboração paralela de times, demonstrando que construir software de valor hoje envolve modelar domínios complexos, antecipar impactos e proteger o sistema contra a entropia.

No desenvolvimento moderno, a arquitetura vai além de criar camadas ou formalizar processos, pois se trata de organizar a complexidade, estruturar o trabalho de múltiplos times para evitar conflitos e garantir que o crescimento do produto não resulte em caos. Essa é uma abordagem que empresas inovadoras já adotam ao posicionar engenheiros-arquitetos ao lado de líderes de produto, stakeholders de negócio e designers de experiência. Nesse cenário, o bom arquiteto, não se limita a escolher entre microserviços ou monólitos, mas compreende os trade-offs de cada decisão, orienta o negócio com base neles, define para quem o sistema será construído, considera as restrições do contexto e cria soluções que resistem ao tempo.

Essa camada de decisão, que conecta problema, contexto e impacto, permanece essencialmente humana e representa o verdadeiro valor do software no presente e no futuro próximo, onde o sucesso de um produto não é definido somente pelo código, mas também pela intenção que guia sua criação, pela arquitetura que sustenta sua evolução e pela inovação que diferencia sua proposta. Estamos em um ponto de inflexão, onde as empresas que permanecerão competitivas não serão aquelas com os programadores mais rápidos, mas as que contarem com pensadores lúcidos e capazes de projetar respostas sólidas antes mesmo de uma linha de código ser escrita. Com a IA assumindo parte da execução, o código tornou-se mais acessível, e o software de verdade não é aquele que simplesmente roda, mas o que resolve problemas reais, dependendo, mais do que nunca, da ideia que orienta o processo.

(Fonte: Fabio Seixas é Fundador e CEO da Softo, uma software house que introduziu o conceito de DevTeam as a Service).