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Mais uma pesquisa alerta: inteligência artificial incentivará demissões

em Tecnologia
terça-feira, 02 de junho de 2026

A Mercer, uma das maiores consultorias globais especializadas em recursos humanos, com presença em cerca de 130 países onde emprega 20 mil profissionais, desenvolveu pesquisa que trouxe uma informação alarmante: 99% dos CEOs acreditam que haverá cortes de pessoal motivados pela inteligência artificial nos próximos dois anos.

Vivaldo José Breternitz (*)

A pesquisa, que ouviu 12 mil executivos de alto escalão, líderes de RH, funcionários e investidores, mostrou que a maioria esmagadora espera redução de quadros em razão da automação e que cresce a ansiedade entre trabalhadores e cai o bem-estar no ambiente corporativo: apenas 44% dos empregados afirmaram “sentir-se bem no trabalho” em 2026, contra 66% em 2024.

Segundo a pesquisa, profissionais entre 22 e 27 anos são os mais vulneráveis. Isso porque tarefas simples, tradicionalmente usadas para treinar novos contratados, estão sendo substituídas por sistemas de IA generativa, que se destacam em atividades rotineiras. O banco Standard Chartered, por exemplo, anunciou o corte de 7 mil postos para substituir o que chamou de “capital humano de baixo valor” por automação.

Outra pesquisa, da consultoria Oliver Wyman, uma das principais consultorias globais de estratégia e gestão, presente em mais de 30 países, incluindo o Brasil, confirma a tendência: em apenas um ano, o número de empresas que reduziram vagas de nível júnior saltou de 17% para 43%.

Apesar da corrida pela adoção da IA, os resultados financeiros não têm despertado entusiasmo. Apenas 27% dos CEOs disseram que o retorno sobre o investimento em IA correspondeu ou superou expectativas, uma queda em relação aos 38% do ano anterior; cerca de 25 afirmou não ter visto impacto algum nos resultados.

Dados da revista Fortune reforçam: demissões em massa ligadas à automação muitas vezes não entregaram os ganhos prometidos em resultados.

Outras consultorias, como a Challenger, Gray & Christmas, especializada em serviços de outplacement, transição de carreira e coaching executivo, apontam que a IA é frequentemente usada como justificativa para cortes, mas servindo como cortina de fumaça para problemas internos, correções de excesso de contratações ou mudanças estratégicas rumo ao outsourcing.

As manifestações dessas empresas sugerem que o mundo corporativo avança de forma acelerada em uma transformação que ainda compreende pouco. Ao eliminar cargos de entrada, empresas podem estar fechando a porta para toda uma geração de trabalhadores, que se vê diante de um paradoxo: o mercado exige experiência, mas extingue os empregos que a proporcionariam.
Se, por um lado, defensores lembram que revoluções tecnológicas anteriores acabaram por beneficiar a sociedade, críticos pedem cautela e ética na implementação de IA. Um tribunal chinês chegou a decidir que empresas não podem substituir funcionários apenas porque “a IA faz um trabalho melhor”.

O Papa Leão XIV publicou em meados de maio sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, versando sobre os impactos da IA. O documento alerta para riscos de desumanização, desemprego e uso bélico da tecnologia, defendendo que a IA deve servir ao bem comum e estar sempre subordinada ao ser humano.

Esperemos que vozes ponderadas como essa, prevaleçam.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].

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