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IA está fazendo empresas terceirizarem o pensamento?

em Tecnologia
quinta-feira, 17 de setembro de 2026

À medida que ferramentas passam de assistentes a executoras, organizações precisam definir o que pode ser delegado e quais decisões ainda exigem julgamento humano.


Um estudo publicado em abril deste ano na revista Technology, Mind, and Behavior, da American Psychological Association, identificou que, em média, 58% dos participantes concordaram que a inteligência artificial “fez a maior parte do pensamento” em tarefas de planejamento, organização e tomada de decisão. Para as empresas, o dado coloca em evidência uma questão que vai além da produtividade: até onde é possível delegar processos à tecnologia sem comprometer a autonomia de quem toma as decisões?


A mudança está relacionada ao chamado cognitive offloading, ou descarregamento cognitivo, fenômeno estudado pela ciência cognitiva que descreve o uso de recursos externos para reduzir a carga sobre a memória e outros processos mentais. A prática não começou com a IA. Listas, agendas, calculadoras, GPS e mecanismos de busca já funcionam há décadas como extensões da capacidade humana.


A diferença é que a inteligência artificial generativa ampliou o que pode ser transferido para uma ferramenta. Além de armazenar ou recuperar informações, os sistemas conseguem resumir, comparar, sugerir caminhos, produzir textos e apresentar alternativas para uma decisão.


“Não estamos simplesmente deixando de memorizar informações porque temos tecnologia. O que está mudando é a distribuição do esforço mental. Antes, precisávamos lembrar, pesquisar, organizar e interpretar. Hoje, podemos pedir que uma ferramenta faça parte desse trabalho em segundos. O ganho de produtividade é real, mas precisamos entender qual parte do processo ainda deve permanecer sob responsabilidade humana”, afirma Roberto Medeiros, CEO da EPI-USE Brasil.

O problema não é terceirizar
Terceirizar parte da memória ou do processamento de informações não significa necessariamente uma perda. Um estudo publicado em 2025 na Frontiers in Cognition mostrou que as pessoas tendem a recorrer mais a recursos externos quando a quantidade de informação aumenta. Em determinadas tarefas, a estratégia pode inclusive melhorar a precisão.


O ponto de atenção aparece quando a ferramenta deixa de funcionar como apoio e passa a substituir etapas importantes do raciocínio.


Com a IA, essa fronteira se torna mais complexa. A tecnologia não apenas recupera uma informação: ela também produz uma interpretação sobre o conteúdo. Na prática, isso permite delegar não só a lembrança de um dado, mas parte da análise necessária para entender o que ele significa.

O que muda nas empresas
No ambiente corporativo, o uso de IA para organizar informações, identificar padrões ou levantar possibilidades pode liberar tempo para atividades mais estratégicas. O risco surge quando respostas geradas pela tecnologia passam a ser aceitas sem questionamento sobre premissas, fontes ou contexto.


“Uma boa utilização da tecnologia não elimina a decisão humana. Ela muda o lugar onde o ser humano coloca sua energia. Em vez de gastar tempo procurando uma informação ou fazendo uma primeira organização dos dados, o profissional pode concentrar mais atenção em contexto, prioridades, riscos e consequências. O problema começa quando velocidade passa a ser confundida com qualidade da decisão”, explica Medeiros.


Para as organizações, portanto, o desafio não está apenas em escolher quais ferramentas adotar. É também desenhar processos que definam em quais etapas a IA pode assumir tarefas e em quais momentos a participação humana precisa ser obrigatória.


“É uma mudança de cultura. A empresa não precisa escolher entre usar IA ou preservar a capacidade de pensamento das pessoas. O desafio é estabelecer em quais etapas a tecnologia deve assumir tarefas e em quais momentos a participação humana precisa ser obrigatória”, afirma o executivo.


A discussão também relativiza um temor recorrente em torno da tecnologia: o de que ferramentas digitais simplesmente “atrofiem” a memória ou o pensamento. A literatura científica é mais cautelosa. O descarregamento cognitivo pode trazer benefícios e custos, dependendo da tarefa, da maneira como o recurso é utilizado e do grau de confiança depositado nele.


A questão, portanto, talvez não seja se estamos terceirizando a memória. Em alguma medida, fazemos isso há décadas. A novidade é que, com a inteligência artificial, também começamos a terceirizar partes do próprio processo de pensar.


“Quanto mais competente a tecnologia se torna, mais importante fica saber o que não devemos delegar a ela. A questão não é manter todas as tarefas na cabeça. É preservar a capacidade de entender, questionar e assumir a responsabilidade pelo resultado”, conclui Medeiros.