
Quando uma empresa exagera ou mente sobre o quão sustentável ela é, diz-se que a mesma está praticando “greenwashing”, expressão que pode significar algo como “pintar de verde”.
Vivaldo José Breternitz (*)
A prática ocorre em muitos setores: finanças, telecomunicações, indústria automotiva e de eletrônicos, etc. Quando o greenwashing é descoberto, os danos à reputação podem ser enormes; um exemplo foi o Dieselgate da Volkswagen, que promoveu uma suposta “tecnologia limpa” para motores a diesel. Em 2015, pesquisas efetuadas nos EUA revelaram que a fábrica fraudava testes, para que seus veículos parecessem menos poluentes. Passados dez anos, a marca não recuperou sua reputação naquele país, e o valor de revenda dos carros da marca permanece baixo, em parte por causa do episódio.
Até agora, empresas de tecnologia não sofreram com escândalos tão devastadores. No entanto, gigantes do setor, tanto de hardware quanto de software, vêm sendo acusadas de práticas enganosas. A Apple, por exemplo, é alvo de críticas há anos: embora invista na redução da poluição em sua cadeia de produção, a falta de suporte prolongado para software e serviços contribui para o descarte prematuro de dispositivos ainda funcionais, gerando lixo eletrônico, que agride o meio ambiente.
Às vezes, as iniciativas ambientais são reais, mas, quando analisadas no contexto geral das operações da empresa, seu impacto é mínimo – muitas vezes são desenvolvidas apenas para fins de marketing. Um exemplo é o da Microsoft, que neste ano assumiu o compromisso de remover 14 milhões de toneladas de CO₂ da atmosfera ao longo de 15 anos; no entanto, só em 2024, a empresa emitiu 15 milhões de toneladas desse gás.
Embora sua atividade principal seja produzir software, a Microsoft gera emissões principalmente através da construção e operação de data centers. Em 2023, 96% das emissões da empresa vieram dessa atividade, que fez seu consumo de energia aumentar 168% em 2024.
A Microsoft não está sozinha nas acusações de greenwashing e uso excessivo de recursos naturais. Data centers de diversas big techs a serem instalados na Carolina do Norte podem consumir até quatro bilhões de litros de água por ano, levantando preocupações sobre o abastecimento da população local.
Há também preocupações com relação ao consumo de energia elétrica por esses data centers. A Amazon é frequentemente citada nesse contexto, em função do crescimento da demanda energética da AWS impulsionado por sistemas de inteligência artificial.
Em 2024, funcionários da empresa estimaram que apenas 22% da eletricidade consumida pela companhia nos Estados Unidos vinha de fontes renováveis, apesar da meta declarada de 100% até 2030. Tem se constatado também que onde a Amazon constrói um data center, a demanda por combustíveis fósseis aumenta.
O progresso tem custos, mas o greenwashing é imoral e deve ser combatido.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].




