
A tentativa da Ford de modernizar seus processos de engenharia e produção com inteligência artificial não trouxe, de início, os ganhos esperados. Pelo contrário, revelou uma lacuna que a tecnologia, sozinha, não conseguiu preencher: a perda de grande parte do conhecimento técnico acumulado por engenheiros ao longo de décadas.
Vivaldo José Breternitz (*)
Nos últimos anos a Ford ampliou o uso de sistemas automatizados para acelerar e simplificar o desenvolvimento de seus produtos. Mas esses sistemas se mostraram menos robustos do que o previsto, sobretudo quando alimentados por dados incompletos ou pouco detalhados.
“Achavamos, equivocadamente, que bastava introduzir inteligência artificial e ajustar os requisitos de projeto para obter um produto de alta qualidade”, disse Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware veicular. Outros executivos da empresa confirmaram esse ponto de vista, dizendo que o problema não era apenas técnico, pois com a demissão de engenheiros experientes, muito do conhecimento institucional, raramente documentado e construído em ciclos repetidos de criação e fabricação de veículos, deixou de ser incorporado aos sistemas de IA.
Para corrigir essa falha, a empresa recontratou e promoveu mais de 350 engenheiros veteranos, que agora participam ativamente da coleta, interpretação e alimentação de dados nos modelos da companhia.
A montadora vinha enfrentando queda nas avaliações de qualidade e liderava o setor em número de recalls. Lançamentos como os dos SUVs Ford Explorer e Lincoln Aviator, expuseram problemas de fabricação, agravados por disrupções na cadeia de suprimentos; essa situação está sendo revertida.
A experiência da Ford ilustra um desafio mais amplo: a automação acelera processos, mas continua dependente de dados sólidos e da experiência humana. A estratégia da empresa, daqui em diante, é equilibrar tecnologia e conhecimento prático, fazendo da IA uma aliada de seus engenheiros, e não sua substituta.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].
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