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Estudantes estão perdendo a capacidade de raciocinar à medida em que usam cada vez mais IA

em Tecnologia
segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Estudantes em todo o mundo estão usando modelos de IA para escrever trabalhos e fazer exercícios. Há muitos casos de fraude, mas muitas vezes as escolas permitem que os alunos façam algum uso dessas ferramentas.

Vivaldo José Breternitz (*)

No entanto, especialistas estão alertando que o uso de IA no processo de escrita não ameaça apenas as habilidades dos alunos nesse campo, mas toda a sua capacidade de pensar.

“Escrever é uma tecnologia para pensar”, disse o psicólogo cognitivo Ronald T. Kellogg ao New York Times em um artigo escrito por Dana Goldstein sobre as consequências de evitar o trabalho árduo de escrever. A escrita, observa o artigo, ajuda a desenvolver vários tipos de faculdades cognitivas, incluindo a construção da nossa memória de trabalho, habilidades de planejamento executivo e metacognição, a capacidade monitorarmos e autorregularmos nossos processos cognitivos.

Kellogg afirma que redigir um texto pode ser tão mentalmente desgastante quanto cavar uma vala é fisicamente exaustivo. É preciso forçar o cérebro para encontrar as palavras certas e organizar ideias de modo que façam sentido para os que forem ler o texto.

Em outras palavras, para escrever é preciso esforço, e quando se introduz uma ferramenta que suprime o esforço, deixa-se de exercitar o cérebro.

Um estudo do MIT, realizado no início deste ano por uma equipe liderada pela pesquisadora Nataliya Kosmyna, descobriu que pessoas que usaram IA enquanto escreviam um ensaio apresentaram menor atividade cerebral em comparação com aquelas que não usaram. Além disso, os que escreveram com IA tiveram dificuldade em lembrar trechos dos ensaios que acabaram de produzir. Além disso, sua atividade cerebral permaneceu em nível reduzido mesmo quando foram posteriormente convidados a escrever novamente sem ajuda da IA.

Como observa o artigo do NYT, poucas pessoas cavariam uma vala de bom grado, e o mesmo vale para escrever. Mas não há parte do processo de escrita que possa ser terceirizada para uma IA sem algum custo, alertou Steve Graham, psicólogo educacional da Universidade Estadual do Arizona.

Muitas escolas, de todos os níveis, estão tentando conter o uso dessa tecnologia pelos alunos, voltando a exigir que trabalhos sejam escritos à mão, frequentemente nas salas de aula, e fazendo avaliações orais.

A Ivy League é um grupo de oito universidades dos Estados Unidos conhecidas por sua excelência acadêmica, prestígio histórico e seletividade. Uma delas, Princeton, aboliu seu Código de Honra que permitia aos alunos fazer provas sem supervisão, por ter detectado casos de uso indevido de IA.

Felizmente, diz Goldstein, alguns estudantes já estão percebendo que usar IA indiscriminadamente prejudica-os, como disse um deles ao NYT. IA é uma ferramenta extremamente poderosa, mas o conhecimento acerca de seus perigos deve ser sempre divulgado.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].