
A inteligência artificial tem sido apontada como responsável por centenas de milhares de demissões ao longo do último ano.
Vivaldo José Breternitz (*)
Mas cresce a evidência de que muitas empresas se precipitaram ao passar para ferramentas de IA funções antes exercidas por humanos; estudos recentes mostram que companhias estão recontratando pessoas, após perceberem que os ganhos de produtividade e economia prometidos pela IA foram superestimados.
Pesquisas indicam que cerca de um terço das empresas que substituiram trabalhadores por IA já readmitiram parte deles ou manifestaram arrependimento. Um relatório da Forrester Research, publicado no fim de 2025, previu que aproximadamente metade das demissões atribuídas à IA seria revertida, embora sem alarde.
Esse “efeito bumerangue”, no entanto, não beneficia igualmente a todos: enquanto profissionais experientes estão sendo recontratados, os que buscam vagas de nível júnior continuam enfrentando dificuldades. A mesma Forrester prevê que muitas companhias aproveitarão a oportunidade para recorrer a mão de obra mais barata no exterior.
A consultoria Gartner também apontou, em fevereiro, que metade das empresas que eliminaram postos de trabalho voltados ao atendimento ao cliente deverá recriá-los até 2027. Em outra pesquisa, apenas 20% dos que dirigem essas áreas afirmaram terem reduzido efetivamente o quadro de funcionários ao adotar IA, sugerindo que a tecnologia tem servido mais para complementar do que substituir trabalhadores.
Relatório da consultoria de recursos humanos Robert Half, que opera também no Brasil, citado pela revista Fast Company, revelou que 29% das empresas pesquisadas recontrataram funcionários para os mesmos cargos que haviam eliminado; as áreas de finanças (44%), recursos humanos (35%) e tecnologia (32%) lideraram as recontratações, seguidas por marketing, jurídico, saúde, administração e atendimento ao cliente. A conclusão parece clara: embora IA execute tarefas com rapidez e eficiência, a queda na qualidade exige mais supervisão humana do que se imaginava.
Entre 2 mil profissionais da área de recursos humanos entrevistados pela Robert Half, 40% afirmaram que a IA não substitui o conhecimento institucional; 38% reconheceram ter subestimado a necessidade de controle de qualidade feito por humanos; e 35% relataram ganhos de produtividade abaixo do esperado. Dados de novembro, obtidos junto a 142 empresas globais, com 2,4 milhões de empregados, confirmaram a tendência de aumento nas recontratações.
Apesar disso, os cortes no setor de tecnologia permanecem em níveis históricos, com muitas empresas citando a IA como fator. Algumas, porém, começam a rever suas decisões diante do chamado “choque de custos”; a Uber, por exemplo, gastou em apenas quatro meses todo o orçamento de 2026 destinado a ferramentas de programação baseadas em IA, como Claude Code e Cursor. Executivos da empresa admitiram dificuldades em relacionar os gastos a melhorias concretas, tendo a Uber passado a limitar o uso dessas ferramentas, medida tomada também por outras companhias.
Enfim, parece que ao menos algumas boas notícias começam a chegar àqueles que perderam seus empregos ou estão sentem-se ameaçados em perde-los.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].
Funcionários são demitidos do Google: IA pode ser a razão – Jornal Empresas & Negócios
