
Embora a inteligência artificial seja apontada como uma ferramenta capaz de prever e ajudar a curar doenças, acelerar pesquisas científicas e aumentar a produtividade, vozes de peso têm levantado preocupações acerca de seu uso sem maiores controles.
Vivaldo José Breternitz (*)
O ganhador do Nobel Geoffrey Hinton, considerado um dos pais da IA, já alertou para a “incontrolabilidade” da tecnologia. Mais recentemente, Bill Gates voltou a se pronunciar sobre o tema, externando preocupações semelhantes.
Mas não são apenas celebridades tratando do assunto: grupos de ativistas, principalmente nos EUA, estão se organizando para tentar mudar os rumos da IA, preocupados especialmente com seus impactos sobre o mercado de trabalho e sobre o consumo de energia.
Dentre esses grupos, estão o que se chamam StopAI, PauseAI e ControlAI, que defendem ações de desobediência civil, uma postura que, segundo analistas, pode ser rapidamente absorvida pela política.
“Somos ativistas não violentos que trabalham para proibir permanentemente o desenvolvimento da superinteligência artificial, a fim de prevenir a extinção da raça humana, a perda em massa de empregos e muitos outros problemas”, afirma o grupo StopAI em seu site oficial.
A organização é a mais radical: promoveu protestos em frente à sede da OpenAI, empresa símbolo da corrida pela IA desde o lançamento do ChatGPT em 2022. Em setembro, imagens de ativistas em greve de fome diante dos escritórios de gigantes como Anthropic e Google DeepMind ganharam destaque na imprensa. “A corrida das empresas está nos conduzindo rapidamente a um ponto de não retorno”, disse Guido Reichstadter, cofundador da StopAI.
Uma pesquisa do Pew Research Center mostra que 55% dos adultos norte-americanos querem maior controle sobre como a IA é usada em suas vidas. Esse movimento também se reflete na crescente oposição aos data centers, acusados de ampliar o consumo de energia. Segundo o Data Center Watch, projetos avaliados em US$ 64 bilhões foram bloqueados ou adiados entre 2023 e março de 2025. “A oposição aos data centers está acelerando. A resistência política cresce e a organização local se torna mais coordenada. É uma tendência sustentada e em expansão”, afirmou um dos autores do estudo à NBC.
O debate já chegou à arena política. O New York Times questionou qual partido poderá capitalizar esse descontentamento. Para Evan Swarztrauber, da Foundation for American Innovation, se os cidadãos perceberem aumentos nas contas de energia devido aos data centers, isso pode prejudicar os republicanos nas urnas.
Apesar do potencial reconhecido da tecnologia, pesquisadores seguem cautelosos. Em 2023, quando a difusão da IA ainda engatinhava, Geoffrey Hinton deixou seu cargo no Google para falar livremente sobre os riscos. Ele também assinou, junto a mais de 200 cientistas, muitos ganhadores do Nobel, um documento entregue à ONU pedindo que os países estabeleçam, até 2026, limites para o desenvolvimento da IA.
“Entre todas as coisas que os seres humanos já criaram, a inteligência artificial é a que mais transformará a sociedade”, afirmou recentemente Bill Gates. “Precisaremos estar atentos à forma como será desenvolvida, governada e distribuída”.
Aqui no Brasil estão nascendo movimentos semelhantes, que se não forem simplesmente cooptados por interesses eleitoreiros, podem vir a ter um papel importante, especialmente nesse momento em que muitos apresentam nosso país como um paraíso para novos data centers.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].



