
Se você tem usado ChatGPT, Claude ou Gemini para ajudá-lo a escrever, cuidado: um novo estudo sugere que o texto aparentemente bem-acabado que você recebe pode não ser tão bom assim.
Vivaldo José Breternitz (*)
Pesquisa publicada na revista Computers and Composition aponta que ferramentas de IA criam uma “armadilha da fluência”: produzem textos refinados e convincentes, mas que muitas vezes escondem erros e raciocínio superficial, passando a falsa impressão de que o trabalho tem muita qualidade.
A pesquisa foi conduzida por Abram Anders, professor da Iowa State University e Emily Dux Speltz, professora da Embry-Riddle Aeronautical University. Eles acompanharam 38 estudantes de graduação, ao longo de dois semestres, em um curso chamado “IA e Escrita”. Os alunos esperavam que a tecnologia reduzisse sua carga de trabalho e melhorasse seus textos, mas não foi isso que aconteceu.
Segundo os pesquisadores, a armadilha se instala porque a IA gera frases que são bem estruturadas e transmitem segurança, levando os autores a aceitar o texto sem questionar, mesmo quando ele contém erros, é superficial ou fora de contexto.
Muitos estudantes, no início, trataram a IA como um buscador: digitavam comandos vagos e aceitavam as respostas sem críticas. Com o tempo, perceberam que o uso eficaz exigia planejamento, clareza e consciência do contexto que o texto em produção deveria considerar, o que são habilidades que bons escritores aplicam sem recorrer à IA.
“A IA produz frases que inspiram confiança, usa o tom certo e soa inteligente”, disse Anders. “Mas essas características podem enganar os alunos, levando-os a confiar na qualidade do texto mesmo quando esta é baixa.”
O estudo identifica alguns pontos que quem escreve precisa compreender para usar a IA de forma produtiva, dentre eles não tratar a IA como uma forma de reduzir a carga de trabalho e sim usá-la para testar ideias, avaliar opções e fortalecer argumentos. Anders e Speltz descrevem essa mudança como a transição de “terceirizar a escrita” para “orquestrá-la”.
O domínio da técnica continua nas mãos humanas. Como conclui o professor Anders: “A IA muda o fluxo de trabalho, mas não muda o fato de que escrever é pensar”.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].



