
Cirurgiões plásticos estão cada vez mais preocupados com o fenômeno que vem sendo chamado “rosto de inteligência artificial”, à medida que cresce o número de pacientes que chegam aos consultórios com expectativas irreais baseadas em imagens geradas por IA.
Vivaldo José Breternitz (*)
Falando ao jornal britânico The Guardian, a médica Nora Nugent, presidente da Associação Britânica de Cirurgiões Plásticos Estéticos, disse que clientes têm levado aos médicos fotos suas modificadas por IA acreditando que resultados semelhantes podem ser alcançados por meio de cirurgia. “Só consigo prever um aumento desses casos, dado o ritmo em que a IA tem sido incorporada a todos os aspectos da vida”, afirmou Nugent.
Essas imagens idealizadas costumam apresentar pele impecável, maçãs do rosto esculpidas, narizes afilados e simetria quase perfeita, padrões que, segundo especialistas, são caros, demorados e muitas vezes impossíveis de atingir. “A IA controla cada pixel, mas a cirurgia não funciona nesse nível microscópico de detalhe”, explicou o cirurgião Alex Karidis, de Londres.
Mais preocupante, dizem os médicos, é o impacto psicológico dessas imagens. Nugent observa que “uma vez que você vê uma imagem, ela fica gravada em sua memória”. Karidis concorda, descrevendo as fotos geradas por IA como “marcadas” na mente dos pacientes, e diz também que colegas seus têm sido inundados por esse tipo de material.
Os especialistas também reforçam que os resultados da cirurgia estética estão longe de ser garantidos. “O paciente precisa entender que há variação na forma em como cada pessoa cicatriza, envelhece e no que pode ser feito”, disse Nugent. “Sempre alerto antes: não é ilimitado o que posso realizar em cirurgia. Nenhum de nós controla tudo”.
O fenômeno deve também estar ocorrendo no Brasil, pois nosso país é hoje o líder mundial em cirurgias plásticas, com mais de 2 milhões de procedimentos realizados em 2024, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS).
Ainda no Brasil, em 2024 foram realizados cerca de 3,1 milhões procedimentos não cirúrgicos, especialmente a aplicação de toxina botulínica e preenchimentos; observe-se que não estão computados os procedimentos efetuados em estabelecimentos “de fundo de quintal”.
Considerando-se todas essas intervenções, observou-se em nosso país um crescimento de 42,5% nos últimos quatro anos; somos o segundo país do mundo nesses casos, perdendo apenas para os Estados Unidos.
Como somos o sétimo país em termos de população, parece haver um certo desequilíbrio…
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].
