
As especulações sobre um possível estouro da bolha de investimentos em inteligência artificial costumem se concentrar em seus efeitos sobre empresas do Vale do Silício e de Wall Street.
Vivaldo José Breternitz (*)
No entanto, na semana que passou, a Reuters divulgou um documento do Banco Central Europeu (BCE), dando conta que uma “correção de mercado”, nome que dá ao eventual estouro da bolha, diante da euforia em torno da IA não apenas é altamente provável, como também pode trazer consequências de porte para quase todo o mundo.
O estudo traz duas visões sobre o tema: a primeira, chamada de “visão racional”, sustenta que os investimentos tecnológicos sem precedentes se justificam pela “incerteza extrema” sobre os efeitos da tecnologia em desenvolvimento na produtividade. Como exemplo, em outubro de 2025, a fabricante de chips Nvidia alcançou a marca de US$ 5 trilhões em valor de mercado apenas pela possibilidade de um salto quantitativo nas capacidades da IA. Caso isso se concretize, a empresa seria vista como a fornecedora essencial da corrida do ouro da inteligência artificial, embora esse “filão” ainda não tenha se materializado.
Prevalecendo essa visão, “na pior hipótese, os investidores perdem o que aplicaram”, diz o BCE. “Mas, na melhor, os ganhos são enormes e dificilmente mensuráveis”, o que faz aumentar o valor das empresas pioneiras.
A segunda é a “visão comportamental”. Nesse caso, investidores excessivamente otimistas estariam se deixando levar pelo entusiasmo em torno da IA, ignorando tanto os riscos de perdas devastadoras quanto a possibilidade de ganhos inéditos, em favor de uma postura imediatista.
Caso esse excesso de confiança em novas tecnologias se dissipe, argumentam os autores, as perdas decorrentes de uma correção de mercado podem ser rápidas e severas, mais intensas do que no caso da visão racional.
Definir qual das duas visões prevalecerá é difícil, mas, em qualquer caso, o estudo conclui que ambas apontam para um ciclo de boom seguido de algum nível de correção, em algum momento futuro.
Segundo os autores, estouro da bolha de IA não seria apenas um problema americano, mas afetaria bancos, investidores e em casos extremos, a economia de países inteiros, inclusive do Brasil.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].




