Letícia Fernandes (*)
Nas últimas décadas, a produção leiteira tem passado por transformações importantes, impulsionadas pela adoção de tecnologias e pela busca por maior eficiência, sustentabilidade e melhores condições de trabalho.
Nesse cenário, os sistemas de ordenha automatizada (Automatic Milking Systems – AMS) vêm ganhando espaço nas fazendas leiteiras, ao modificar de forma significativa o manejo do rebanho e a rotina de ordenha.
Com a expansão desses sistemas, estudos têm avaliado seus impactos na produção e qualidade do leite, no comportamento animal, na saúde e bem-estar das vacas e na eficiência operacional, especialmente no uso de mão de obra. Além disso, a ordenha robotizada proporciona maior autonomia às vacas, permitindo que escolham quando se alimentar, descansar e ir à ordenha, o que contribui para uma rotina mais natural.
Pesquisas indicam que a adoção da ordenha robotizada pode resultar em aumento na produção de leite. Propriedades que migraram de sistemas convencionais para o AMS relatam incrementos produtivos entre 2% e 12%, especialmente quando as vacas passam a ser ordenhadas mais de duas vezes ao dia. Também são observados ganhos relacionados à redução da necessidade de mão de obra, maior liberdade comportamental dos animais e melhoria na qualidade de vida dos produtores.
Dentro dos sistemas robotizados, um dos principais pontos de atenção está na forma como o fluxo de vacas é organizado na propriedade. Esse fluxo pode seguir diferentes estratégias, sendo as mais comuns o fluxo livre e o fluxo guiado, modelos que impactam diretamente o comportamento dos animais e a eficiência do sistema.
No fluxo livre, as vacas têm acesso irrestrito ao robô de ordenha, à área de descanso e ao cocho. Durante a ordenha, recebem concentrado, o que reforça a associação positiva com o processo e estimula visitas voluntárias ao robô. Esse modelo prioriza o conforto e a autonomia, permitindo que os animais se movimentem de forma mais natural, sem a necessidade de estruturas que direcionem seu deslocamento.
Nesse sistema, o número de ordenhas é regulado principalmente por parâmetros definidos no software, respeitando os intervalos adequados para cada animal.
Já nos sistemas de fluxo guiado, a movimentação das vacas é organizada por meio de portões de seleção, que direcionam o acesso às diferentes áreas da instalação. Um dos modelos mais utilizados é o “feed first” (alimentação primeiro), no qual as vacas acessam livremente o cocho, mas precisam passar por um portão de seleção para retornar à área de descanso, sendo encaminhadas à ordenha apenas quando autorizadas pelo sistema.
Outro modelo é o “milk first” (ordenha primeiro), em que as vacas precisam passar pela seleção antes de acessar a alimentação. Nesse caso, aquelas que estão aptas são direcionadas ao robô e, após a ordenha, seguem para o cocho e, posteriormente, retornam à área de descanso.
Estudos mostram que o tipo de fluxo influencia diretamente o comportamento das vacas. Em sistemas guiados, pode haver maior interferência na dinâmica social do rebanho, enquanto no fluxo livre observa-se maior ingestão de matéria seca, maior tempo de ruminação e menor formação de filas próximas ao robô.
Esse padrão também impacta o comportamento alimentar: vacas em fluxo livre tendem a realizar mais refeições ao longo do dia, porém em menores quantidades, um comportamento já observado em estudos comparativos entre diferentes sistemas de tráfego, o que favorece a saúde ruminal e uma digestão mais estável.
A literatura também descreve ganhos produtivos associados ao fluxo livre, como aumento na produção diária de leite, maior número de ordenhas por dia e melhor aproveitamento do sistema robotizado.
Independentemente do modelo adotado, o objetivo deve ser sempre o bem-estar animal. Vacas confortáveis e saudáveis expressam melhor seu potencial produtivo, resultando em maior produção e qualidade do leite.
Mesmo em sistemas de fluxo livre, o controle de acesso ao robô continua sendo essencial para garantir intervalos adequados entre ordenhas e preservar a saúde da glândula mamária. Embora o aumento da frequência de ordenhas esteja associado à maior produção, é fundamental respeitar os limites fisiológicos dos animais.
Um sistema de ordenha automatizada bem ajustado, aliado a manejo criterioso, permite equilibrar produtividade, saúde e sustentabilidade. Quando esses fatores caminham juntos, o resultado é um rebanho mais eficiente, sem renunciar ao conforto e do bem-estar das vacas.
(*) Médica-veterinária pela USP, mestre em microbiologia do leite pela Texas University e líder de equipe FMS LATAM da Lely
