Leonardo Ribeiro (*)
Em março de 2026, o Canvas lançou um agente de ensino integrado à sua plataforma.
Não foi uma ruptura, mas a continuidade de um movimento que já vinha transformando o ensino superior. A questão que se impõe agora não é tecnológica: é de liderança. Como gerir equipes, cultura e processos em um ambiente em que a inteligência artificial deixou de ser ferramenta de apoio e passou a atuar como agente ativo dentro das instituições?
A diferença que importa
A IA generativa, que ganhou espaço nas universidades a partir de 2023, responde a perguntas. A IA agêntica, por sua vez, age: recebe objetivos e executa etapas de forma autônoma. O Gartner projeta que até 2028, um terço dos aplicativos empresariais terá agentes embutidos. Nas universidades, isso já é realidade — de plataformas como o UT Verse, no Tennessee, a tutores agênticos em Toronto e parcerias da Northeastern com a Anthropic.
No Brasil, o IEEE já sinalizou que a massificação da IA agêntica trará desafios de educação, infraestrutura e governança. A pergunta deixou de ser “se” vai acontecer. Agora é “como” liderar nesse novo cenário.
O que muda para quem lidera pessoas
Quando agentes passam a monitorar desempenho, responder dúvidas e apoiar orientação acadêmica, o papel docente muda de natureza, não de importância. O julgamento pedagógico, a relação humana e o desenvolvimento do pensamento crítico tornam-se ainda mais centrais.
Para gestores, isso significa reconfigurar atribuições, desenvolver novas competências e criar uma cultura em que professores sejam parceiros da tecnologia. Pesquisa da EDUCAUSE mostrou que, em 2025, 57% das instituições já tratavam IA como prioridade estratégica. Mas prioridade sem agenda de pessoas vira investimento em tecnologia que ninguém usa bem.
O fator que a tecnologia não resolve
A USP criou em 2025 o GPGAIA, grupo de pesquisa em governança de agentes de IA. O foco é claro: estruturar regras e responsabilidades para sistemas que agem com autonomia. Sem esse trabalho paralelo de formação e engajamento, a adoção tende a ser fragmentada e de baixo impacto.
No Brasil, 84% dos alunos e 79% dos professores já usaram IA. Mas adesão não é capacidade. Capacidade institucional se constrói com pessoas, não apenas com licenças de software.
Novos papéis que ainda não existem
Estudos recentes mostram que o papel do professor evolui: de adotante tecnológico, a mediador ético, e agora designer de ambientes de aprendizagem com agentes. Isso exige formação específica e novas funções administrativas — profissionais para monitorar agentes, integrar dados e liderar governança.
A demanda já aparece nos números: os cursos de pós-graduação em IA cresceram 128% entre 2024 e 2025.
Por onde começar
As instituições que avançam melhor são as que fazem primeiro as perguntas de pessoas:
• Minha equipe docente tem competências para trabalhar com agentes?
• Como comunicar a adoção de forma que professores sejam protagonistas?
• Que funções precisam ser criadas para governar os sistemas?
• Como garantir que a experiência humana permaneça no centro?
A IA agêntica já está dentro das universidades. O que define o resultado não é qual sistema foi contratado, mas se as pessoas souberam o que fazer com ele quando chegou.
(*) Diretor da ZRG Partners Brasi.
