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Liderar Equipas de TI em Tempos de Automação: O Que (ainda) é Insubstituivelmente Humano?

em Opinião
sexta-feira, 25 de julho de 2025

Joanna Ferraz (*)

Nos últimos anos, as equipas de TI têm enfrentado uma transformação sem precedentes.

Automatizamos processos, implementamos IA, aumentamos a eficiência, reduzimos custos e ganhámos escalabilidade. Ferramentas que antes exigiam esforço manual hoje são resolvidas por scripts ou bots. Mas, no meio dessa revolução, uma pergunta tornou-se inevitável: o que, afinal, ainda depende de nós?

Como profissional que lidera projetos com equipas técnicas e outsourcing, tenho vivido esse dilema de perto. Cada nova tecnologia promete facilitar o trabalho — mas também levanta receios: “Serei substituído?”, “Qual é o meu valor neste novo cenário?”. E é aqui que entra o papel mais importante da liderança: lembrar às pessoas o que é insubstituivelmente humano.

Liderar uma equipa de TI em tempos de automação exige mais do que domínio técnico. Exige visão de sistema, empatia, escuta ativa e capacidade de unir talentos em torno de um propósito comum. Já não basta ser bom a executar. É preciso saber potenciar talentos, criar uma cultura de confiança e dar autonomia — especialmente quando trabalhamos com equipas remotas ou terceirizadas, onde o desafio de engajamento é ainda maior.

Lembro de um projeto em que estava responsável por uma equipa técnica alocada em outsourcing, distribuída entre diferentes clientes e localidades. Os indicadores de entrega estavam a cair e o cliente estava frustrado. A análise inicial apontava falhas técnicas, mas ao conversar com os colaboradores percebi algo mais profundo: havia falta de conexão, desmotivação e um sentimento de invisibilidade.

Em vez de reforçar o controlo, fiz o contrário: promovi reuniões individuais, ajustei expectativas de ambos os lados e dei espaço para que os técnicos sugerissem melhorias. Criei um plano de acompanhamento com base em confiança e escuta — não microgestão. Em poucos meses, o cenário mudou completamente: os KPIs voltaram a subir, o cliente renovou o contrato e a equipa passou a sentir-se parte, e não apenas “recurso”.

Essa experiência reforçou o que já desconfiava: a diferença entre uma equipa mediana e uma equipa de alta performance não está na tecnologia — está na liderança que cuida das pessoas por trás dela.

Muitas vezes, confunde-se liderança com controlo. Mas a liderança de verdade não está em monitorar entregas, e sim em criar contextos onde as pessoas entregam o seu melhor por vontade, não por obrigação. E isso nenhuma automação vai conseguir replicar.

Já acompanhei projetos em que a tecnologia estava no topo — mas a equipa estava no limite, mal comunicada, sem clareza de propósito. Resultado? Baixo desempenho, retrabalho e insatisfação generalizada. Já vi também o oposto: equipas tecnicamente medianas, mas altamente alinhadas, comprometidas e motivadas. E que entregavam mais, melhor e com muito mais propósito.

É esse o ponto. Tecnologia sem liderança humana é só ferramenta. Mas tecnologia bem conduzida por líderes humanos torna-se alavanca de transformação.

Acredito que o nosso papel enquanto líderes, sobretudo em áreas técnicas, é equilibrar o avanço digital com a valorização do talento humano. É lembrar que por trás de cada linha de código, há uma pessoa com medos, ambições e histórias. É formar, ouvir, inspirar. É fazer perguntas do tipo: “O que posso fazer hoje para que esta pessoa entregue melhor amanhã?” “Como posso garantir que esta equipa se sinta parte — mesmo que esteja a quilómetros de distância?”

No fim das contas, a pergunta mais importante talvez seja esta: “O que faço no meu trabalho que nenhuma IA será capaz de replicar?”

A resposta não está na técnica. Está na relação. Na visão. No cuidado. Na liderança.

(*) Gestora de projetos na área de TI e outsourcing.