Crescimento econômico em meio da pandemia e outros demônios

Josilmar Cordenonssi Cia (*)

O relatório Focus apresentou uma expectativa de crescimento da economia ainda pior, passando de uma queda de 5,89% para 6,25%.

Esta parece ser uma taxa já mais madura, na qual a grande maioria dos analistas já revisaram as suas projeções com base no relatório do IBGE que apontou uma queda de 1,5% do PIB do primeiro trimestre deste ano com o último de 2019, já dessazonalizado. No segundo trimestre é esperado uma queda bem mais profunda.

Se as medidas de isolamento social forem suspensas ao final de junho, é esperado que atividade ficará estacionada no mesmo nível das duas últimas semanas de março ao longo de todo o segundo trimestre, que significará uma queda de 8,5% em relação ao primeiro trimestre. O risco é que essa saída possa ser prematura, por causa do isolamento social não ser tão estrito como gostariam os epidemiologistas, podendo provocar um repique no número de casos e de mortes por covid-19, forçando uma volta ao isolamento.

Aqui a população precisa ser muito bem orientada, recebendo informações claras das implicações de uma “segunda onda” pode provocar. Precisamos aprender com as experiências dos povos asiáticos que o uso correto de máscaras e a disciplina dos hábitos de higiene devem ser incorporados permanentemente. A volta gradual das atividades, minimizando os riscos de contaminações e ao mesmo tempo reativando a economia, demandará um grande esforço de coordenação e monitoramento.

Se tudo der certo, a economia começa uma trajetória de crescimento ao ritmo de 5% ao ano, a partir de julho. Nesse ritmo, a economia terminaria o ano com uma queda de “apenas” 6,80%. Se o governo conseguir restringir o aumento de gastos somente para esse ano, reduzindo os gastos estruturais com a reforma administrativa, isso trará credibilidade de que a trajetória da dívida é sustentável.

Assim, a taxa de juros reais poderá ficar em níveis historicamente baixos, que será o principal motor do nosso crescimento sustentável, puxado pelo setor privado e o fim dos ciclos de “voo de galinha”. A qualidade da retomada de crescimento é mais importante do que o tamanho da queda do PIB desse ano.

Vale notar que esse cenário se dá em um ambiente em que os governantes estejam atentos à pandemia e coordenando os esforços da volta gradual das atividades, sem perder de vista das reformas estruturais que garantirão a nossa volta aos trilhos do desenvolvimento sustentável.

Infelizmente, esse não é o retrato perfeito da nossa situação. Sempre pensei que quando os diferentes grupos políticos tivessem um inimigo comum, eles se uniriam para combater esse inimigo, especialmente quando esse inimigo está nos infligindo um custo de vidas e econômico nunca visto em nossa história. Pois, o coronavírus é esse inimigo comum de todos os brasileiros, mas nunca vi o país e suas principais autoridades tão divididas.

Todos falam de democracia, respeito pela Constituição, respeito pelas instituições democráticas, liberdade de expressão. Mas também nunca escutei falar tanto em golpe de Estado, fechar o Congresso e o STF. Parece que tudo pode acontecer, de golpe de Estado a impeachment ou simplesmente teremos que levar esse clima tenso até o final de 2022. No meio desse pandemônio em que nos metemos, a primeira vítima é a confiança.

Muitos empresários preferirão esperar, despedir seus funcionários (se já não o fizeram) e deixar o seu negócio em estado de hibernação e proteger do que restou de reserva financeira. Os consumidores que percebem que seus empregadores não têm condições de garantir seus próprios negócios, veem seus empregos em risco e adiam o quanto podem seus gastos com consumo.

Nesse cenário, o meu temor é de que a queda de 6,25% do PIB do relatório Focus não seja o centro das expectativas, mas o piso.

(*) – Graduado em Economia, mestre e doutor em Administração de Empresas. É professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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