Como sair do turbilhão

Benedicto Ismael Camargo Dutra (*)

Com a aceleração geral, o ser humano está perdendo a capacidade de analisar a vida e os acontecimentos que o rodeiam e não consegue mais refletir por si, perdendo a essência e capacitações.

A vida está acelerada, mas cultural e moralmente há estagnação e retrocesso. Os relacionamentos são superficiais, movidos por interesses do momento. No turbilhão de acontecimentos, o desgaste é grande e tudo vai ficando efêmero, sem que se aproveite o presente de corpo e alma, com intensidade, colhendo vivências úteis. Não há mais espaço para reflexões sobre a espiritualidade.

Há muitas questões para serem examinadas, mas na aceleração em que estamos vivendo nada se pensa porque falta vontade e os problemas se avolumam, pois não são compreendidos, o que amplia o distanciamento do ritmo natural da vida. Nada mais é respeitado e as leis naturais da Criação permanecem desconhecidas. Perde-se a tranquilidade da alma. A vida vai seguindo sem que se saiba exatamente por que e para quê. Evidentemente, a velocidade das comunicações e dos transportes impulsiona as tomadas de decisões. Através do celular, as pessoas são acionadas dia e noite.

Essa nova situação possibilitou a ascensão do dinheiro ao centro das motivações humanas, dando ensejo a operações especulativas que provocam instabilidades permanentes no mercado e aumento da aspereza nos relacionamentos, pois o dinheiro se dissociou da economia real e gira pelo mundo visando gerar mais dinheiro em operações ousadas e competitivas entre grupos poderosos, interferindo na economia de Estados e suas populações.

A aceleração geral tende a criar a avidez de consumir sem parar para refletir e desfrutar, provocando o esgotamento dos recursos; o planeta já mostra fraturas expostas. Com essa limitação, agravada pelas alterações climáticas e elevada população, os preços dos bens essenciais tendem a subir gerando inflação, com exceção daqueles produtos que encalham nos pontos de venda porque falta renda nas mãos dos consumidores.

Não se trata só de uma questão monetária, mas de algo mais limitante. Mesmo assim, não faltam os que advogam que o controle de preços exige a necessidade de manter as taxas de juros elevadas, restringindo a economia ainda mais. O desenvolvimento humano e o nível de qualidade de vida no Brasil vêm se arrastando desde os tempos do Império.

Atualmente o Brasil ocupa o 79º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A economia se encontra no chão, abatida e sem forças para se reerguer. Ganhos especulativos com juros, câmbio e cambalachos criaram um ambiente propício para a busca de vantagens particulares em prejuízo do progresso real do todo. A questão é como ter uma economia com sustentabilidade e fortalecimento do mercado interno.

Perde-se tempo precioso com futilidades, mas a dor causada pela grande aspereza poderá despertar aqueles que cultivam o anseio inconsciente para entender o que está se passando. O desassossego se multiplica com as nuvens de informações e imagens que querem adentrar na mente das pessoas sem pedir licença. Imagens chocantes. Com tanto impacto negativo, o mundo se desumaniza.

O aprendizado da vida ficou soterrado sob o monte de entulho despejado sobre o cérebro dos estudantes, enchendo-lhes a cabeça sem que seja formada uma estrutura básica para raciocinar com clareza. Não há tempo para o sonho, nem para a reflexão pausada. Alguns países deram à educação um papel preponderante na formação de uma civilização séria e disciplinada, com alvos nobres. No entanto, a educação deve alcançar o nível compatível para promover discernimento, profundidade e humanidade.

Desacelerar é o imperativo para sair do turbilhão e restabelecer o ritmo natural do corpo e da alma, humanizando a vida.

(*) – Graduado pela FEA/USP, faz parte do Conselho de Administração do Prodigy Berrini Grand Hotel e é associado ao Rotary Club de São Paulo. É articulista colaborador de jornais e realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida. Ccoordena os sites (www.vidaeaprendizado.com.br) e (www.library.com.br). Email ([email protected]).

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