Arruaça

Mario Enzio (*)

Quem vive em condomínio pode ter vivido experiências estressantes com vizinhos. Nada que não possa se resolver. Será?

A novidade revolucionária que veio junto com os prédios de apartamentos foi o elevador, que começou a ser fabricado no Brasil em 1918. Sem ele era um esforço descomunal subir vários lances de escada com as compras do mês. O que o digam os que moram em andares altos quando falta luz ou os de prédios antigos sem essa facilidade de locomoção.

Se bem que nesses prédios mais antigos têm quatro, cinco ou no máximo seis andares. Sabe-se que subir doze lances de escada não é para qualquer um. Naqueles tempos o esforço podia ser compensado. Talvez por conta disso as pessoas tivessem um corpo mais definido. O glúten não era tema nas conversas. Nem a gritaria nos corredores do prédio, muito menos fazer um churrasco na laje, ouvia-se pouco o que o outro fazia além da sua porta.

A moda era outra e o nível de relacionamento com os vizinhos ocasionavam outras sintonias. As pessoas se conheciam, sabiam os nomes dos moradores, se olhavam nos olhos, e, podem acreditar no que vou escrever: se cumprimentavam. Anos vão e vêm, os prédios ficaram espigões. Viraram até tema de novela. Esses espigões se tornaram mares de concreto, tanto é mais prédios no bairro de Moema, região onde se localiza o aeroporto de Congonhas, continuam a ser erguidos não se inibindo com a aproximação dos aviões em pousos ou decolagens. Não deveria ser o contrário?

Pois é: essas cavernas modernas ganham espaço em todas as cidades. Se viajarmos para uma cidade pequena que não tiver um prédio pode ter comentários de seus habitantes de que não é tão desenvolvida. Ou seja: morar em um prédio poderia ser sinônimo de progresso, mas quem vive dentro deles não necessariamente significa que tenha evoluído em aspectos de convivência e respeito como se esperaria.

Não saberia dizer se as paredes ficaram mais finas, já que o prego não fixa sem uma boa bucha ou porque se utiliza do gesso que é mais barato que o concreto, o que consigo perceber é que se escuta quase tudo que o vizinho está fazendo. Por estar assim tão próximo do vizinho, não deveria ser mais solidário? Não, diria que inversamente proporcional.

Entendo que há uma relação de quanto mais redes sociais menos integração física. Indica-se que queremos distância, para poder fazer o que queremos sem que ninguém nos perturbe. Não importando a quem possa chatear desde que seja a qualquer hora. Ou seja: vale o que eu faço e me convém.

Se você tem um grupo de moradores em seu prédio que age dessa maneira, não está isolado. Há um grande número de condomínios que primam pela bagunça institucionalizada. E quando o síndico não é amigo desses moradores e está sempre nas festinhas programadas para promover mais confusão e menos convivência.

E pensar que a Justiça poderá lhe ajudar? Em alguns casos sim. Em outros as ações serão extintas sem analise de mérito por falta de provas. Afinal, como confirmar a gritaria que durou das quatro às cinco da manhã, na noite de quarta-feira para quinta-feira se não conseguimos ter um fiscal a postos com um medidor de ruídos que possa aferir nossa insatisfação?

(*) – Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).

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