Amígdala: por que ela pode impedir a inovação?

Marília Cardoso (*)

“Aqui, isso não funciona”. “Sempre fizemos assim”. “Não é minha responsabilidade”. “Conheço alguém que tentou e foi demitido”.

É bem provável que você já tenha ouvido essas e muitas outras frases na sua empresa. Elas trabalham a favor do que chamo de sistema imunológico empresarial. E, infelizmente, a grande maioria das empresas tem um sistema forte e robusto, que zela para que tudo continue como sempre foi. E a chave para essa questão pode ser a amígdala.

É possível que você esteja dizendo: “não tenho esse problema, já que retirei a amígdala ainda na infância”. Calma. Não estamos falando dessa amígdala, que fica na garganta, mas sim da que fica no seu cérebro e é responsável, entre outras funções, por regular as nossas emoções e comportamentos sociais. E ela tem um papel fundamental para nos alertar de que algo pode nos colocar em perigo.

É por causa dessa amígdala que tendemos a prestar muito mais atenção em notícias ruins, já que elas podem representar algum risco à nossa própria sobrevivência. Ou seja, a amígdala é, provavelmente, uma das maiores responsáveis pela perpetuação da nossa espécie. Temos que considerar que ela tem o seu valor.

No entanto, por mais que tenha um papel essencial, é necessário destacar que ela também tem um aspecto bastante negativo, em especial no que tange à inovação. Como zela pela preservação e manutenção do status quo, a amígdala tende a nos levar sempre a tomar medidas mais cautelosas e já conhecidas, a fim de nos mantermos em ambientes seguros.

O problema é que a inovação demanda um comportamento exatamente oposto, que nos estimule ao risco e à ameaça. Então, combater esses comportamentos protetivos é fundamental para quem deseja inovar na essência. Precisamos então desconstruir velhos mentais – que nos levam sempre à lei do menor esforço – para buscar o novo. A boa notícia é que nosso cérebro é muito mais inteligente do que nós mesmos podemos imaginar.

No passado, os cientistas achavam que esse era um órgão se mantinha intacto ao longo de toda a nossa vida. Foi só nos anos 1970 que se descobriu a neuroplasticidade. Ou seja, nosso cérebro é plástico, podendo ser moldado por meio de estímulos. Em outras palavras, ele funciona como um músculo, podendo ficar muito forte e sarado – desde que seja estimulado.

Sendo assim, precisamos de doses diárias de estímulos. O professor emérito da Universidade da Califórnia, Michael Merzenich, defende que é possível, ao longo de toda a vida, criar novos circuitos e conexões neuronais em resposta a estímulos e experiências, o que resulta em mudanças funcionais. Nas décadas de 1970 e 1980, por meio de experimentos com animais, Merzenich demonstrou que os circuitos neuronais e as sinapses se modificam rapidamente de acordo com a atividade praticada.

Segundo ele, o cérebro foi construído para mudar de acordo com as experiências vivenciadas e a forma como é usado. Quando trabalhamos para aprimorar uma habilidade, ocorre uma mudança na “fiação cerebral” (nas sinapses ou conexões neuronais). Assim, quando o cérebro é exercitado, alteramos todo o seu funcionamento, seu suprimento de sangue e de energia, bem como a força de suas operações.

Portanto, não apenas melhoramos uma habilidade em si, mas todo o maquinário cerebral. Entre as atividades que mais turbinam o cérebro estão as novas aprendizagens, as mudanças de comportamento, aprender a tocar um instrumento musical, um novo idioma, mudar de emprego e até mudar rotas. Ou seja, tudo o que nos tira do “piloto automático”.

Então, a partir de agora, toda vez que você se sentir desconfortável, fora de sua zona de acomodação, lembre-se que você está, na verdade, trabalhando a favor do seu cérebro. Quanto mais você se desafiar, correr riscos e estiver apto a ressignificar possíveis erros, mais inovação será capaz de gerar. E por mais aterrorizante que tudo isso possa parecer no início, logo você descobrirá que o processo será exatamente o mesmo de quando começa a frequentar uma academia: dói muito, mas com uma boa dose de persistência, você logo pega gosto.

Assim, a amídgala deixa de ser a protagonista e se torna uma coadjuvante que só entra em ação quando for realmente necessário. Como nos músculos, os resultados costumam aparecer em pouco tempo. E como valem a pena!

(*) – É sócia-fundadora da Palas, consultoria pioneira na implementação da ISO 56.002, de gestão da inovação (www.gestaopalas.com.br).

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