Mais uma batalha na guerra dos chips

Vivaldo José Breternitz (*)

Os dispositivos semicondutores são os principais componentes dos chips utilizados em equipamentos eletrônicos, desde computadores e smartphones sofisticados, até brinquedos e relógios baratos. A China está investindo pesado na área, visando dominar o mercado de semicondutores e se tornar autossuficiente em termos de chips mais sofisticados.

A empresa taiwanesa TSCM é uma das líderes nesse mercado, e vem sendo atacada por duas empresas que tem em sua retaguarda o governo chinês, a QXIC e a HSMC, fundadas respectivamente em 2019 e 2017. Nenhuma dessas empresas fabrica, ainda, produtos sofisticados, mas ambas receberam aportes de vários bilhões de dólares do governo de Pequim para acelerarem o desenvolvimento de novos produtos; ambas são dirigidas por antigos executivos da TSCM.

As armas empregadas nessa batalha não são novos ou melhores produtos, preços ou propaganda, mas simplesmente o aliciamento de pesquisadores, engenheiros e executivos da TSCM, aos quais são oferecidos salários e benefícios extremamente atraentes; apenas neste ano, cerca de 50 profissionais da empresa taiwanesa aceitaram as ofertas dos chineses, que estão ao redor de salários 2,5 vezes maiores do que recebiam na TSCM, mais bônus. Curiosamente, essas empresas chinesas estão se estabelecendo em Taiwan.

A TSMC tem dito que a saída desses funcionários não deve lhe trazer problemas, ressaltando que seu turnover é menor que 5% – evidentemente a empresa não poderia dizer o contrário, mas os que a deixaram certamente não serão facilmente substituídos. No entanto, a empresa expressa preocupações no sentido de que segredos industriais e comerciais possam ser levados aos seus concorrentes, o que obviamente acontece.

Nesse sentido, a TSMC disse à imprensa que compete sempre observando as leis e a propriedade intelectual de outros, e espera que seus concorrentes ajam da mesma forma, e que toma medidas adequadas para proteção de seus direitos. Levando em conta as ações desses concorrentes e as práticas usualmente adotadas por empresas chinesas, essas medidas precisam ser enérgicas e tomadas rapidamente.

Um fato que certamente está por trás dessa briga é a proibição, pelo governo americano, de que a TSMC venda seus produtos à Huawei, a maior companhia chinesa na área de tecnologia. Sem fornecedores não sujeitos às sanções americanas, a Huawei certamente se veria em graves dificuldades, especialmente no mercado de telefonia 5G.

É briga de cachorro grande.

(*) – Doutor em Ciências pela USP, é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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