124 views 5 mins

Franquias usam escala com finanças embarcadas para derrubar custo bancário

em Negócios
segunda-feira, 03 de agosto de 2026

Finanças embarcadas ajudam redes recorrentes a reduzir custos, organizar recebíveis e capturar valor antes concentrado nos bancos.

O mercado de franquias brasileiro atingiu um patamar histórico em 2025, registrando R$301,7 bilhões em faturamento, distribuídos em 3.297 redes e mais de 202 mil operações. Por trás desses números robustos, no entanto, opera uma engrenagem financeira ineficiente e ainda pouco explorada. Atualmente, milhares de pequenos franqueados negociam de forma isolada e fragmentada taxas de cartão, seguros, energia, crédito e serviços bancários. Eles perdem dinheiro diariamente por não utilizarem o peso de marcas fortes que possuem alta recorrência de receita e grande volume transacional. Em um cenário econômico desafiador, com o Copom cortando a Selic para 14,25% ao ano em junho de 2026, terceiro corte seguido, e ainda assim sinalizando cautela diante da inflação acima da banda e dos riscos fiscais, o custo de capital tornou-se uma variável decisiva. É nesse ambiente que o modelo de embedded finance (finanças embarcadas) avança de forma pragmática no varejo e nos serviços. Estudo estima que essa tecnologia pode gerar cerca de R$ 24 bilhões em receita adicional em 2026, além de destravar até R$ 83 bilhões em oferta de crédito.

A inteligência desse modelo está em estruturar a operação financeira que já acontece organicamente dentro da rede, integrando pagamentos, recebíveis, royalties, seguros e crédito ao fluxo operacional por meio de APIs e contas operacionais. “Quando uma rede conhece o faturamento, a recorrência e o comportamento financeiro dos seus franqueados, ela tem um ativo que pode ser usado para gerar eficiência, reduzir custo e criar novas linhas de receita”, explica Letícia Moschioni, cofundadora e sócia da Finscale. “O desafio é estruturar isso com governança e tecnologia, sem descaracterizar o negócio principal. A empresa precisa começar pela dor: taxa de cartão, inadimplência de royalties ou capital de giro. Quando a solução resolve um problema concreto, o serviço financeiro passa a fortalecer a operação principal.”

Um dos reflexos mais imediatos dessa estruturação tecnológica impacta diretamente a receita principal das franqueadoras: os royalties (que costumam girar entre 4% e 10% do faturamento das unidades, conforme o segmento e o modelo da rede). Quando a cobrança depende de boletos e prazos individuais, a inadimplência e o desgaste comercial entram na rotina. Com a tecnologia de finanças embarcadas, cada transação na ponta pode separar automaticamente a parcela da franqueadora via split de pagamento, direcionando o valor para uma conta controlada sem tirar a previsibilidade de caixa do franqueado.

Um case que ajuda a dimensionar o impacto financeiro dessa centralização é o da PlugZ. Segundo Antônio Castilho, CEO e fundador da startup, a diferença entre negociar sozinho e negociar em rede transforma custos pulverizados em margem de lucro. De acordo com Castilho, uma unidade franqueada que fatura entre R$ 150 mil e R$ 200 mil por mês costuma ser tratada pelos bancos tradicionais como uma pequena empresa isolada, sem poder de barganha. Sob essa ótica, uma venda de R$ 100 no cartão de crédito pode reter até R$3,80 no sistema financeiro (taxa de 3,80%). Contudo, quando essa operação se integra a um ecossistema como o da PlugZ, que consolida, segundo a própria empresa, o volume das lojas da rede para movimentar R$ 617 milhões por mês, o patamar de negociação muda. Com o ganho de escala, a taxa de aquisição despenca para patamares a partir de 2,40%. Para fins ilustrativos, o CEO da PlugZ pontua que um empreendedor que lucrava R$ 20 mil por mês pode passar a embolsar R$ 23 mil apenas ao somar pequenas economias em adquirência, energia e seguros negociados em bloco. O dado funciona como um exemplo claro da tese de que, em redes pulverizadas, a margem financeira de franqueados e franqueadores está escondida em custos operacionais que nunca haviam sido organizados coletivamente.