80 views 7 mins

A nova fase da IA é agir. Agora o desafio é confiar

em Negócios
quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Alisson Santos (*)

Durante os últimos três anos, a Inteligência Artificial foi o principal argumento de venda da indústria de cibersegurança. Quase todas as empresas diziam ter IA e prometiam automatizar operações, reduzir riscos e aliviar a sobrecarga das equipes de segurança.

Na prática, porém, boa parte dessas soluções ainda funcionava como um assistente sofisticado que analisava dados, fazia recomendações e aguardava que um especialista tomasse a decisão final.

Na Black Hat USA 2026, realizada em Las Vegas, na primeira semana de agosto, na qual estive presente, ficou evidente que essa fase terminou.

Pela primeira vez, a discussão deixou de ser sobre o potencial da Inteligência Artificial e passou a ser sobre sua operação. A IA saiu definitivamente do slide e entrou na arquitetura das plataformas. Essa talvez seja a mudança mais importante que vi na conferência.

Os fabricantes já não apresentam apenas ferramentas que auxiliam analistas. Estão colocando em produção agentes capazes de investigar incidentes, correlacionar informações, chegar a conclusões e executar respostas dentro de limites definidos pela própria organização. Tudo isso com trilhas de auditoria, rastreabilidade e possibilidade de reversão.

Existe uma diferença enorme entre sugerir uma ação e executá-la. É justamente essa fronteira que a indústria começou a cruzar.
Isso também explica por que a abertura do evento foi tão diferente neste ano. A presença conjunta da Casa Branca, CISA, FBI e Departamento de Guerra discutindo políticas públicas para uma era orientada por IA mostrou que o tema deixou de ser exclusivamente tecnológico. Estamos falando de infraestrutura crítica, soberania digital e competitividade econômica.

Ao mesmo tempo, chamou minha atenção o fato de que praticamente todas as conversas importantes giravam em torno de confiança. A pergunta deixou de ser “como usar IA?” e passou a ser “como confiar nela?”. Não existe Inteligência Artificial confiável sem dados confiáveis.

As pesquisas apresentadas durante o evento reforçam exatamente esse ponto. O levantamento da Gigamon mostrou que a IA esteve presente em 83% dos incidentes analisados, mas o dado mais relevante talvez seja outro, organizações com maior visibilidade sobre suas redes conseguem compreender o que aconteceu e responder com muito mais precisão. Quem não possui essa visibilidade continua trabalhando com hipóteses.

A pesquisa da Picus segue a mesma direção ao demonstrar que os ataques continuam evoluindo em velocidade superior às abordagens tradicionais de defesa. Se o atacante automatiza sua operação, a defesa também precisa automatizar a sua. Caso contrário, a diferença de escala se torna impossível de compensar apenas com pessoas.

Talvez seja justamente esse o maior aprendizado da Black Hat deste ano.

Durante muito tempo discutimos se a IA substituiria profissionais de segurança. Hoje essa pergunta perdeu relevância. O verdadeiro debate agora é se alguma empresa irá conseguir operar segurança sem Inteligência Artificial daqui para frente.

Não porque a IA seja perfeita, está longe disso. Mas porque o volume de alertas, vulnerabilidades, identidades, dispositivos e eventos já ultrapassou a capacidade humana de análise. O papel do especialista muda, ele deixa de executar tarefas repetitivas para assumir uma função de supervisão, governança e tomada de decisão estratégica.
Esse movimento tem uma implicação especialmente positiva para a América Latina.

Existe uma percepção equivocada de que essa nova geração de soluções exige começar tudo do zero. O que vi na Black Hat aponta exatamente o contrário. A maior parte dessas plataformas aproveita investimentos que muitas empresas já realizaram em identidade, proteção de dados, telemetria e observabilidade. O desafio agora não é comprar mais tecnologia. É conectar melhor a tecnologia existente.

Isso também transforma profundamente o papel do ecossistema de canais e dos distribuidores de valor agregado. Quem continuar apenas revendendo licenças tende a perder espaço. O mercado passa a exigir integração, arquitetura, capacitação técnica e capacidade de provar que diferentes soluções realmente funcionam juntas dentro da realidade operacional do cliente.

Antes de se impressionar com qualquer demonstração, os CISOs deveriam fazer perguntas simples como, por exemplo, quais decisões esse agente pode tomar sozinho? Quem define esses limites? Existe rastreabilidade? É possível desfazer uma ação? A inteligência utilizada vem de uma única fonte ou de múltiplos domínios correlacionados? Essas respostas serão muito mais importantes do que qualquer promessa de marketing.

Após acompanhar o evento estou convencido de que a indústria entrou em uma nova etapa. Agora, começa a fase em que a Inteligência Artificial será julgada não pelo que promete, mas pelo que entrega diariamente dentro das operações de segurança.

E essa talvez seja a mudança mais significativa que a cibersegurança viveu desde a consolidação da nuvem, a IA deixou de ser uma funcionalidade e passou a ser a arquitetura sobre a qual as decisões serão tomadas.

(*) Head de Produto da CLM.