Marcelo Prado (*)
A gente fala muito do agronegócio brasileiro como locomotiva do país. E é mesmo. Em 2023, o segmento representou quase um quarto do nosso PIB, gerou um monte de emprego e ainda segurou a barra da balança comercial. É um gigante, um colosso que alimenta o mundo e faz a roda da economia girar. Mas, e aqui entra o meu ponto, tem algo que não encaixa nessa equação de sucesso: a comunicação. Mais especificamente, o marketing de influência.É quase um paradoxo, concorda?
Enquanto o agro puxa o PIB com a força de um trator, a comunicação do setor, especialmente no universo dos influenciadores, parece andar de charrete. A gente vê o mercado de influência borbulhando, movimentando bilhões, com milhões de criadores de conteúdo no Brasil. Marcas de todos os segmentos, das mais diversas, correndo para surfar essa onda, planejando aumentar seus investimentos. E o agro? Ah, o agro… parece que ainda está na beira do rio, observando a correnteza passar.
Falo isso com a propriedade de quem vive o agronegócio por mais de uma década, ajudando a construir a voz de mais de 20 empresas do setor. Vi de perto a modernização, a tecnologia invadindo as porteiras, a força das marcas e dos profissionais que fazem o campo acontecer. Mas a pergunta que não cala é: por que essa potência econômica não se traduz em protagonismo na comunicação?
Por que setores com um impacto infinitamente menor na nossa economia conseguem ditar a pauta, gerar audiência, colecionar seguidores e, no fim das contas, ter mais prestígio na opinião pública?Será que é falta de autoestima? Uma certa timidez em ocupar o espaço que é seu por direito?
O Brasil é o celeiro do mundo, não é só uma frase bonita de efeito. É um fato. Um fato econômico, social, geopolítico. E está na hora do agro abraçar essa verdade, contar suas histórias sem filtro, com orgulho, com estratégia. Porque, enquanto a gente hesita, outros colhem os frutos da visibilidade, da conexão, da influência.
E a ausência de dados concretos sobre o investimento do agro em marketing de influência é um sintoma. Um sintoma claro de que se investe pouco, e o que é pior, se mede menos ainda. É como ter um GPS de última geração no trator, mas usar um mapa de papel para traçar a rota da comunicação.
O digital está lá, presente, mas não na proporção da força que o setor representa. É preciso ser franco: o agro ainda comunica menos do que poderia, e muito menos do que precisa. Em um cenário onde a percepção pública molda decisões, constrói valor e abre portas, o agronegócio brasileiro não pode se dar ao luxo de ficar à margem.
O marketing de influência, quando bem feito, com estratégia, com verdade e com a sensibilidade de quem entende o campo, pode ser a ponte que falta para conectar o agro à sociedade. Investir em influência não é vaidade. É inteligência de negócio. É entender que, além de plantar, colher e exportar, é fundamental comunicar. Comunicar com quem está na lavoura, na cidade, com quem estuda, consome, com quem forma opinião.
O agro já é protagonista da economia. Chegou a hora de ser protagonista também na comunicação e na publicidade. Sem rodeios, sem meias palavras. Com a força que lhe é peculiar. E com a voz que merece ter. E que precisa ser ouvida, e não apenas sentida no bolso. Porque, no fim das contas, a influência é a nova moeda da credibilidade. E o agro tem muito a ganhar com isso. Muito mesmo.
(*) Fundador e CEO da agência Memo.



