
Medida em avaliação do Senado libera disparo automático e inclui um orçamento de quase R$ 5 bilhões para campanhas digitais
A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto que autoriza o disparo em massa de mensagens por candidatos durante as eleições, agora em análise no Senado, reacende discussões sobre os impactos da tecnologia na disputa eleitoral e os limites da comunicação digital entre campanhas e eleitores.
A proposta inclui um orçamento de quase R$ 5 bilhões para campanhas, além de mais de R$ 1 bilhão do fundo partidário para despesas permanentes, que poderão ser destinados a disparos via plataformas como WhatsApp, Telegram, SMS e outros serviços semelhantes, acompanhando a migração crescente das campanhas para o ambiente digital. Em contrapartida, especialistas alertam para o risco de aumento do spam eleitoral, da saturação dos usuários e da dificuldade de fiscalização sobre o volume e a origem dos conteúdos disseminados.
“É um tema que exige equilíbrio. De um lado, existe o legítimo interesse dos candidatos em ampliar os canais de comunicação com os eleitores. De outro, é fundamental garantir a privacidade dos cidadãos, a transparência sobre o uso de seus dados e, principalmente, garantir que a ação não tenha um impacto negativo sobre a integridade desse ecossistema digital”, afirma Guilherme Rocha, fundador e CEO da HelenaCRM.
Para o especialista, a autorização para disparos em massa por meio de sistemas automatizados, ainda que restrita a contatos previamente cadastrados, traz uma questão central para o debate: qual a origem desses dados e em que medida houve consentimento efetivo dos eleitores para o recebimento desse tipo de comunicação?
“Em um ambiente onde bases de dados circulam com facilidade, muitas vezes sem total transparência sobre sua coleta e compartilhamento, surge o questionamento sobre quantos desses contatos foram fornecidos voluntariamente pelos usuários e quantos apenas integram mailings adquiridos ou compartilhados ao longo do tempo. Abre-se uma brecha para questionamentos sobre consentimento e uso indevido de informações pessoais, um tema que dialoga diretamente com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD)”.
Além disso, de acordo com Guilherme Rocha, mensagens em massa só tendem a produzir resultados positivos quando chegam ao público correto e são recebidas de forma consentida. Quando o envio ocorre de maneira aleatória ou sem autorização do destinatário, o efeito pode ser justamente o oposto, gerando rejeição, desgaste da imagem do candidato e percepção negativa por parte do eleitor.
Entretanto, a principal preocupação está nos impactos que a medida pode gerar sobre os mecanismos que hoje ajudam a preservar a qualidade da comunicação digital. Plataformas como o WhatsApp desenvolveram, ao longo dos anos, sistemas de autorregulação baseados no comportamento dos usuários, incluindo bloqueios, denúncias e até o banimento de contas que realizam envios abusivos. Embora pouco perceptíveis para quem utiliza o aplicativo no dia a dia, esses recursos são fundamentais para manter o ambiente funcional, seguro e confiável.
“Quando uma legislação passa a limitar ou flexibilizar esses mecanismos, cria-se um descompasso entre as regras da plataforma e a experiência do usuário. Mesmo que de forma temporária, isso pode abrir espaço para o aumento do spam e comprometer a qualidade das interações dentro do canal”, explica Rocha.
O executivo cita o caso das ligações telefônicas, hoje amplamente ignoradas pela população devido ao excesso de abordagens abusivas, muitas delas legítimas, mas indistinguíveis de tentativas de golpe. “Você inutiliza um canal riquíssimo por conta do excesso. As pessoas deixam de atender porque partem do princípio de que aquilo é indesejado. Isso aconteceu com a telefonia, aconteceu com o e-mail e pode acontecer com aplicativos de mensagem”.
Do ponto de vista estratégico, não há dúvida de que o disparo em massa pode aumentar o alcance das campanhas e reduzir custos operacionais. Em um ambiente competitivo e altamente fragmentado, falar diretamente com o eleitor, no dispositivo mais pessoal que ele possui, o celular, é uma vantagem poderosa. “Não é só sobre essa iniciativa, é sobre o que vem depois. A gente pode transformar um ambiente que hoje é saudável em um ambiente saturado. Ou seja, essa eficiência pode ter um custo de longo prazo: desengajamento, bloqueios em massa e perda de credibilidade do canal. Um ativo valioso, a comunicação direta, pode ser rapidamente desgastado”, enfatiza o executivo.
“A campanha eleitoral de 2026 pode, assim, marcar não apenas uma disputa nas urnas, mas também um novo capítulo na forma como os brasileiros se relacionam com a informação que chega, todos os dias, na palma da mão”, finaliza.
As empresas de logística e a LGPD: 4 passos importantes para se adequar – Jornal Empresas & Negócios




