Como a pandemia está impactando o mercado varejista de tintas

Nassim Katri (*)

Desde o início da pandemia, o setor de Construção Civil – e todos os varejistas de materiais de construção, elétricos, hidráulicos e de tintas podiam abrir suas lojas, sempre respeitando as regras de atendimento que privilegiavam o distanciamento social e as normas rígidas de higiene. Foi um ano em que o setor teve um excelente desempenho, ainda mais porque muitas pessoas passaram a trabalhar em casa e optaram – por vontade ou necessidade – em fazer obras e reformas.

Porém, na fase mais restritiva do Plano São Paulo, os varejistas de todos os portes ficaram impedidos de trabalhar da forma tradicional, podendo operar por drive-thru e com delivery. Neste momento, quem não se preparou adequadamente durante o ano sentiu o peso da crise. Já quem vinha se estruturando para operar com novos canais de varejo conseguiu superar bem a crise – e agora, novamente, as lojas estão abertas, na flexibilização.

Segundo a Abrafati – Associação Brasileira de Fabricantes de Tintas, o setor cresceu 3,5% em 2020, produzindo nada menos do que 1,623 bilhão de litros. Desse montante, 83,4% – ou 1,354 bilhão de litros – equivalem às tintas imobiliárias, o que mostra o gigantismo do setor. Com a pandemia, a necessidade de manter-se em casa fez com que o consumidor desse mais atenção ao seu ambiente – e pintá-lo foi uma ação natural.

Vendemos bem, muito bem: algumas redes varejistas cresceram, em faturamento, até 110% de um mês para o outro, em plena pandemia. E muitos aprenderam a trabalhar com o cliente de maneiras que, antes, não eram comuns, com atendimentos à distância, fossem eles por telefone, WhatsApp, delivery, e-commerce ou drive-thru. A crise foi, de certo modo, positiva ao setor, porque forçou o varejista a adotar novas práticas comerciais, relacionando-se com seu cliente com proximidade e mais estratégia.

Quando a restrição do Plano São Paulo chegou, não esperávamos ser incluídos nas restrições, porque pequenas lojas – essa é a composição de 80% do setor – não comportam aglomerações de clientes e, mesmo que o fizessem, não teriam uma procura tão grande para representar alto risco de contaminação. Não somos um setor que forma filas de consumidores nas portas ou aglomerações nos balcões.

A restrição foi coerente para os home centers, que assemelham-se aos shoppings centers e, abertos nos finais de semana, principalmente, tornaram-se local de passeio para famílias. Esses sim podem ser considerados locais de alto risco de contaminação. Porém, boa parte dos pequenos varejistas estava preparada para encarar a nova situação – a bomba caiu, mas não espalhou muitos estilhaços. Com estrutura para fazer entregas, equipes treinadas para o delivery e o drive-thru, foi preciso informar o cliente da nova modalidade de compra disponível e continuar trabalhando.

Desta forma, para os comerciantes que se prepararam durante todo o ano, a situação não causou grande impacto de faturamento – inclusive, algumas redes conseguiram manter estabilidade de vendas suficiente para manter as contas em dia, mas o impacto não possa ser desconsiderado. Mas, para aqueles que confiaram na imunidade do setor, a situação piorou a cada dia de loja fechada.

Ainda não temos plena certeza de como serão os próximos meses e se haverá novos períodos de restrições mais severas, com fechamento das lojas. Esperamos que não porque, como citei, as lojas de tintas de pequeno porte não têm perfil de causar aglomerações. O setor de tintas e da construção civil, no geral, são grandes empregadores e manter as lojas fechadas certamente causará desemprego.

As lojas de materiais de construção são o primeiro passo da indústria da construção civil e, fechadas, causarão grande impacto em toda a cadeia, especialmente para os setores pós-construção, como transporte, projetos, móveis e decoração, entre outros, porque eles só trabalham após a conclusão das obras. O encadeamento pode ser preocupante, a curto prazo.

(*) – É CEO da Pinta Mundi Tintas.

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