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Tratamentos com cannabis medicinal podem atingir 2% da população

em Manchete Principal
segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Óleo da planta ajuda com doença de Parkinson, Alzheimer, autismo e ansiedade.

Redação

Que tal um mercado superior a 900 mil pessoas, com alta fidelidade, gerando R$ 1 bilhão/ano? E se este setor da economia estiver ligado à saúde, projetando atingir 2% da população nos próximos três ou quatro anos? Mais ainda: se a apresentação do tal mercado for baseada em um fitoterápico? Pra quem ainda não arriscou um palpite, estamos tratando da cannabis medicinal. Ou melhor, nos referimos a um fitoterápico (de classificação especial pela Anvisa) que trata (no sentido literal) das doenças de parkinson, alzheimer, espectro do autismo, epilepsia, fibromialgia e um dos males deste século: a ansiedade. A planta cannabis, outrora conhecida pelo uso exclusivo de recreação, mudou de patamar há muito tempo e sua utilização como fitoterápico na medicina integrativa é amplamente reconhecida, inclusive pela Anvisa. “A cannabis para uso medicinal é um caminho sem volta”, diz a especialista Amanda Sá em podcast gravado há dois anos. Atualmente o trabalho de várias associações tem ajudado, quando não suprido o papel do Estado. Mas ainda há senões e preconceito, que se pretende derrubar, de uma vez, inclusive na Câmara dos Deputados, elevando o tema para a regulação definitiva (marco legal), ao sair de vez da semi-regulação em que vivemos.

Na natureza não existe a cannabis medicinal, existe a cannabis para uso medicinal. E isto precisa ser difundido mais e mais, apregoou o “1º Seminário Boas Práticas no Associativismo Canábico Federativo”, realizado no último dia 22 em São Paulo. Promovido pela Federação das Associações de Cannabis Terapêutica (FACT), o encontro reuniu alguns representantes de suas 80 associadas, e convidados, em que se discutiram os avanços e pesquisas da cannabis para uso medicinal, legislação, mobilização social, cases, orientação e preconceito. Em síntese, é um novo olhar sobre a planta da maconha.  “Enquanto for acessada por poucos, a maconha não atingirá todo seu potencial medicinal”, declarou Luciana Boiteux, professora de Direito Penal da UFRJ.

O deputado estadual Eduardo Suplicy (quarto da direita para a esquerda) declarou estar se tratando com cannabis.

A exemplo de Luciana, o diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Thiago Campos, graduado em direito e especializado em gestão de políticas de saúde e direito sanitário, falou no evento pelo telão sobre o apoio às iniciativas da federação. Desta forma, entraram na discussão produtores, advogados, psicólogos, fisioterapeutas, governo e sociedade civil. Ângela Abain (fisioterapeuta, fisiologista e conselheira do CONAD – Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas), coordenadora geral da FACT, comentou os avanços regulatórios e o papel das entidades neste temário.

A federação das associações (https://factbrasil.org.br/) trabalha na construção de pontes, por vezes diferentes a depender da região do país. Com o espírito cooperativista – em que todos se dão as mãos –, ajuda a organizar novas associações, disseminar a cultura da cannabis medicinal, identificar o cânhamo industrial. Pela definição do Conselho Federal de Biologia, o cânhamo industrial é uma variedade da planta Cannabis sativa que possui concentrações muito baixas de THC (geralmente abaixo de 0,3%) e não causa efeitos psicoativos. Ele é cultivado para extração de fibras resistentes, grãos e compostos medicinais como o CBD, sendo amplamente utilizado nos setores têxtil, de construção, alimentício e farmacêutico.

Ainda sobre a FACT, Ângela Abain disse que 87% das associadas oferecem preparados ao mercado (geralmente o óleo de cannabis) e 75% fornecem cannabis para pacientes, atuando como rede de cuidados, sem atuação comercial.

Pesquisas e dados da cannabis medicinal também reforçam aplicações para pacientes diagnosticados com dores crônicas, espasticidades (aumento anormal do tônus muscular que causa rigidez e dificuldade para relaxar os músculos) e até mesmo câncer. “Queremos aprimorar os tratamentos, juntando novos dados aos que já conhecemos”, resume a coordenadora, acrescentando que a criminalização da maconha ainda é um problema. Não raras vezes produtores e pesquisadores são interpelados sobre a cannabis, apesar de trabalharem dentro do aspecto legal.

Histórias que a vida conta

Durante o Seminário Boas Práticas no Associativismo Canábico Federativo, vários cases e depoimentos foram apresentados – ao vivo e pelo telão. Violeta Dib, psicóloga clínica e head da Associação Cultural Canábica de SP (https://www.acucasp.org.br/), falou do trabalho de conscientização, inclusive pelo lado cultural. “Precisamos ter um olhar de confiança”, disse ela. Rubens Santini discorreu, com emoção, sobre o trabalho social da Abraticão (@abraticao) e atuação junto a crianças autistas, que receberam a cannabis medicinal e 70 cães doados para reforçar o tratamento. Denis Lopes, professor de educação física e de capoeira abordou o trabalho da organização O Saci  (https://www.osaci.org.br), na região de Campinas (SP).

Já o voluntário Enor Machado Morais recebeu uma grande ovação ao falar de sua organização, a Flor da Vida, nascida da necessidade de um sobrinho (o pequeno Eduardo, que não falava até os 3 anos, diagnosticado com TEA). “A família não quis buscar tratamentos convencionais, com seus efeitos colaterais, e optou por algo mais natural, mais saudável”, disse Enor, que fez extração caseira do óleo da cannabis e garante – emocionando-se na apresentação — que os resultados foram surpreendentes. Logo nascia a Associação Terapêutica de Cannabis Medicinal Flor da Vida, atualmente abrigando um grupo de 100 pessoas para o trabalho em três unidades no Estado de São Paulo e uma em Brasília e já atendeu 800 pessoas totalmente de graça. Acesse seu Relatório Social, pelo site https://flordavida.ong.br/.

Frente Parlamentar

Aliás, o deputado estadual Eduardo Suplicy, diagnosticado com parkinson há questão de uns três anos, declarou estar se tratando com cannabis (passando pela Flor da Vida) e, aparentemente, está bem, mantendo a doença sob controle. Tão bem e tão convicto que integra a Frente Parlamentar da Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial na Assembleia Legislativa de São Paulo, promovendo debates, financiamento de projetos e avanços da distribuição de remédios, à base de cannabis, pelo SUS paulista. Ele esteve na FACT, no dia 22, acompanhado de Mônica Dallari.

Já no plano federal, ele estará brevemente junto de seu colega Paulo Teixeira com a direção dos Correios. Ideia é ter um diálogo aberto e esclarecedor sobre o transporte da cannabis (quando importada, por exemplo, ou adquirida de outra localidade distante da residência) via serviço de entrega de embalagens do correio.

Na Câmara tramita o PL 4865/2026 (Política Nacional de Pesquisa Científica sobre a Cannabis) e o PL 2726/2024 (que destina plantas apreendidas pela polícia para pesquisas medicinais), de iniciativa do deputado João Carlos Bacelar, da Bahia. O primeiro projeto visa o estabelecimento de diretrizes para ampliar a inovação e garantir segurança jurídica a instituições e pesquisadores; e o segundo altera a Lei Antidrogas para permitir que a Cannabis apreendida por forças policiais seja repassada a laboratórios de pesquisa medicinal em vez de ser incinerada.

Receituário obrigatório

Em 2024, o POD+ Empresas (podcast vinculado ao jornal Empresas&Negócios) entrevistou Amanda Sá, CEO da Medra Brasil, para abordar a cannabis medicinal. Foi o 16º episódio, em que ela trouxe vários esclarecimentos. Entre os quais que o óleo da cannabis não vicia, que a aquisição do produto só pode ser feita (seja em farmácias brasileiras, seja importando) com receituário médico e/ou de um cirurgião-dentista. Ela previu que até 2029 chegaríamos a 4 milhões de usuários da cannabis medicinal, no Brasil, e que a planta, que reúne 140 compostos medicinais, ajudando em 180 patologias, só cresceria em conhecimento do público, a ponto de já ser um caminho sem volta.

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