173 views 8 mins

Os benefícios da semana de trabalho de quatro dias para os negócios

em Manchete Principal
sábado, 31 de dezembro de 2022

Marcelo Lopes (*)

Apesar de ser uma novidade distante da realidade da maioria das organizações brasileiras, a ‘four-day week’, ou semana de trabalho de quatro dias, já foi implantada em várias empresas estrangeiras. Entendemos que, por sermos uma empresa que defende a importância dos benefícios para os colaboradores e para o bom desempenho dos negócios, essas mudanças devem começar por nós mesmos.

Na minha análise enquanto CEO, os motivos para uma empresa diminuir a carga de trabalho vão além da produtividade. Não basta apenas vendermos benefícios. Temos que fazer questão que nossos colaboradores sintam a experiência de liberdade e flexibilidade que tanto pregamos aos nossos clientes. Por isso, no começo do mês de julho implantamos a jornada de trabalho de 32 horas por semana.

Essa mudança no regime de trabalho visou trazer uma melhoria na qualidade de vida dos colaboradores, além de acompanhar também essa tendência que já é aplicada em outros países e só cresce. Os funcionários da Eva Benefícios Flexíveis já estão há meses vivendo a experiência de ter a sexta-feira livre para aproveitarem tempo, além de terem um dia útil livre para resolver pendências pessoais, como por exemplo ir ao médico, ao banco, e entre outros compromissos.

É muito satisfatório ouvir os relatos de como os colaboradores têm aproveitado esse tempo livre. Uma de nossas funcionárias compartilhou que é mãe solo, e que a sexta-feira se tornou um dia livre de autocuidado para ela, já que o final de semana ela não conseguia aproveitar por ter o compromisso de fazer a tarefa de casa com a filha e dar atenção devida. Agora, o dia de folga é todo dela, seja para dormir e descansar, ver um filme, ou passear sem ter a preocupação com a filha que fica sob os cuidados da escola nos dias úteis.

Apesar de o novo modelo está fluindo, ainda estamos em um período de teste que vai até o início do ano que vem, e um dos pontos cruciais para o sucesso dessa nova jornada é trabalhar apenas oito horas diárias, sendo imprescindível não fazer hora extra. Caso os resultados sejam satisfatórios, nós vamos manter a jornada de trabalho de quatro dias.

Uma das preocupações em implantar essa mudança foi não realizar descontos nos salários e benefícios dos nossos colaboradores, ou aumentar a pressão por resultados. Nossa intenção é de fato melhorar a qualidade de vida dos funcionários, já que isso por si só causa impactos positivos no desempenho deles. A semana de trabalho de quatro dias, apesar de se tornar cada vez mais popular, também vem acompanhada de várias polêmicas.

Para muitos empresários, não há como implementar esta redução na carga horária sem ter reflexos na produtividade. Entretanto, algumas empresas que já adotaram esse regime de trabalho estão mostrando que a produtividade se mantém — ou melhora — e que os colaboradores ficam mais satisfeitos com esse benefício.

Vários países como Reino Unido e Nova Zelândia estão fazendo testes buscando institucionalizar a semana de trabalho de quatro dias. A Islândia testou o sistema entre 2015 e 2019 e, segundo os pesquisadores responsáveis, o sucesso foi estrondoso.

O estudo foi realizado com cerca de 1% da população islandesa e os trabalhadores participantes afirmaram que se sentiam menos estressados e ansiosos, o que é ótimo, pois isso diminui as chances de desenvolver a síndrome do esgotamento — ou burnout.
Vale ressaltar que a produtividade se manteve a mesma, além dos casos em que ela até aumentou.

Geralmente a rotina corporativa é exigente ao extremo, quando falamos do segmento de tecnologia, sendo assim, a pressão por performance e comportamento pode levar a essa degradação emocional.

Com esses estudos já fica comprovado que diminuir a carga horária de trabalho semanal são medidas que proporcionam melhores condições para os colaboradores e minimizam o desgaste decorrente do ofício. No entanto, as empresas que decidirem adotar esse sistema no Brasil, precisam resolver algumas questões legais, já que as empresas geralmente prevêem a carga horária de 40 horas semanais no contrato.

Sendo assim, é necessário fazer um acordo entre empregador e empregado — acordo este que pode ser ou não mediado pelo sindicato da categoria — para formalizar a transição.

Além de todas essas questões que já foram citadas, outro ponto de destaque desse modelo de trabalho disruptivo é atrair e reter talentos, depois que divulgamos em uma rede social a adesão da jornada de quatro dias de trabalho na semana, muitos profissionais têm nos enviado currículos e mensagens pedindo emprego.

O ambiente corporativo mudou e no cenário pós-pandemia os colaboradores estão buscando empresas que oferecem uma melhor qualidade de vida por meio dos benefícios. Por outro lado, as empresas estão procurando cada vez mais formar equipes mais eficientes, com a competitividade cada vez maior no mundo corporativo, é fundamental traçar estratégias para que os melhores funcionários permaneçam na companhia.

Um estudo realizado pela Universidade da Califórnia identificou que um trabalhador feliz é, em média, 31% mais produtivo, três vezes mais criativo e vende 37% a mais em comparação com outros. A pesquisa também mostra que o colaborador acaba motivado a atender melhor o cliente, evita acidentes no trabalho e reduz desperdícios. Para se sobressair no mercado, ser vista como uma boa empresa para se trabalhar, reter e motivar colaboradores, a chave do sucesso está na valorização do trabalho e na qualidade de vida dos trabalhadores.

Sabemos que a remuneração é importante, mas investir em benefícios como carga horária reduzida, horário flexível ou trabalho híbrido é uma aposta promissora para manter a equipe motivada. Os profissionais dedicam quase metade do seu dia ao trabalho e, por isso, o ideal é que essas pessoas sintam prazer aos desenvolver sua função.

Apostamos no tempo de qualidade, a jornada de quatro dias pode trazer muitos benefícios para a empresa e para o empregado, é uma questão que ainda precisa ser discutida, incentivada e desenvolvida dentro do Brasil.

(*) – É CEO da Eva Benefícios Flexíveis (https://evacard.com.br/lp-home/).