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Histórico de pagamentos está defasado. Análise por comportamento é o novo dado econômico

em Manchete Principal
terça-feira, 04 de novembro de 2025

Paula Esteves (*)

O Brasil vive uma contradição silenciosa: milhões de microempreendedores movimentam a base da economia, mas continuam invisíveis para o sistema de crédito. O motivo? O País ainda mede risco com base no passado, quando deveria olhar para o comportamento presente. Nos últimos quatro meses, analisamos mais de R$ 35,7 milhões em transações realizadas por 1.160 microempreendedores ativos. Cada usuário faz, em média, 34 lançamentos por mês, pouco mais de um registro por dia.

Na prática, isso significa que o microempreendedor olha para suas finanças todos os dias, criando consciência sobre seu dinheiro, algo que nenhum extrato bancário é capaz de medir. O chamamento é que, bancos e fintechs, se unam conosco para construir o primeiro score comportamental brasileiro, baseado em hábitos financeiros reais de microempreendedores.

Fato é: o negócio é viável, mas o CPF suga o lucro do CNPJ. E os dados corroboram para isso. Em média, o empreendimento gera superávit, enquanto a vida pessoal gera déficit, o que impacta diretamente o resultado final. É exatamente esse tipo de comportamento, ou seja, a mistura de contas, ausência de pró-labore, falta de visão consolidada, que explica a mortalidade precoce das microempresas brasileiras.

Dados do Sebrae mostram que a taxa de falência das empresas é mais alta nos dois primeiros anos de atividade, cerca de 48% delas fecham as portas nesse período, principalmente por falta de organização financeira. Outro dado chama atenção, mais de 60% delas sobrevivem até o quinto ano de fundação, revelou o IBGE. O modelo atual mede risco olhando para o histórico de pagamento, ele é apenas a fotografia do passado, não mostra como a pessoa está gerindo o presente, nem se está aprendendo a administrar melhor.

E é também o que o score de crédito tradicional não enxerga. Um score comportamental, ao contrário, mede frequência, disciplina e separação; quantas vezes o empreendedor lança suas finanças por mês; se separa PF e PJ; se mantém pró-labore regular; se reage aos lembretes do DAS, e ainda se o saldo do negócio se mantém positivo. São sinais simples, mas altamente preditivos. Isso só é capaz se o micro empreender tiver em mãos um aplicativo ou plataforma de gestão financeira, que funcionam como um robô assistente que captura exatamente esses dados em escala nacional, e mais: ajuda o microempreendedor a aprender a lidar com o dinheiro.

Behavior Score dita as regras do jogo

Essa modalidade, diga-se de passagem, é estudada há mais de uma década em centros de pesquisa como a FDIC (EUA), ResearchGate (Europa) e Zhima Credit (China). Esses sistemas analisam padrões de comportamento digital, frequência de transações, regularidade de pagamentos e indicadores não tradicionais de confiabilidade. As evidências mostram que, dados comportamentais, reduzem erro preditivo em até 30% quando combinados com histórico financeiro, permitindo conceder crédito a novos perfis de forma mais segura. Os dados indicam um padrão consistente: os empreendimentos são sustentáveis, mas o consumo pessoal compromete o resultado.

O superávit médio de R$ 1.444,35 na categoria “Negócio” é absorvido pelo déficit de R$ 2.561,00 na categoria “Pessoal”, resultando em saldo global negativo. Isso comprova o fenômeno que o Instituto chama de “sangria cruzada” — quando o lucro empresarial é corroído pelo custo de vida pessoal do empreendedor. Este quadro pode ser descrito como desequilíbrio de caixa por confusão de identidades financeiras.

Em linguagem de risco, é um problema de governança individual, o empreendedor não sabe distinguir o “dinheiro da empresa” do “dinheiro da casa”. Essa desorganização é invisível aos modelos tradicionais de crédito, mas altamente preditiva de inadimplência futura. Um negócio pode ser lucrativo e, ainda assim, inadimplente se o caixa for consumido por despesas pessoais não controladas. Concessão de crédito produtivo mais justa, baseada em comportamento e não apenas em passado, refletem em:

  • Redução da inadimplência estrutural (com foco na educação como mitigador de risco);
  • Novas métricas de impacto social, ligando hábito financeiro a estabilidade econômica;
  • Integração com fintechs e bancos públicos, que poderão incorporar esses indicadores aos seus algoritmos de concessão.

O desafio no Brasil é cultural e estrutural. A maioria dos microempreendedores mistura finanças pessoais e empresariais, como dito acima, e carece de ferramentas simples de registro e não tem formação financeira formal. Sem dados, não há análise; sem hábito, não há dado. A resposta está na educação aplicada ao comportamento: o registro diário das finanças, a separação das contas e a criação do hábito de olhar para o dinheiro como ferramenta de decisão e não apenas sobrevivência.

Avante!

(*) Empreendedora, fundadora do Instituto WorkLover, hub de pesquisa, educação e tecnologia, organização sem fins lucrativos que transformou a obrigatoriedade de educação antes do crédito em política pública no Estado de São Paulo. É professora de gestão na Fundação Dom Cabral, autora do livro “O Código do Empreendedor” com prefácio do Augusto Cury.